
A Sala de Espera
Em uma manhã de sábado, que sucedia uma noite de sexta irrigada por cerveja e doses modestas de tequila, Francisco substituía o amargo remanescente do álcool pelo sabor forte do café, visando encontrar algum tipo de fonte de energia para encarar mais uma estadia no projeto comunitário do Hospital Cajuru, onde havia se matriculado pela terceira vez.
Ainda tomado pela ressaca, Francisco se viu em meio a uma dinâmica de grupo, formada por uma roda de pessoas desconhecidas até então. O cenário que abrigava a atividade era irregular e esburacado, e mais parecia anunciar um pequeno acidente que eventualmente poderia acontecer ali. Com o próprio Francisco, talvez? Sim, com ele mesmo. O imprevisto aconteceu de fato, por intermédio de um corre-corre que resultou na torção do seu pé.
Socorrido por colegas, ironicamente Francisco migrou de voluntário para paciente do hospital. Passou a ser alguém na mesma situação das pessoas que ele pretendia ajudar. Passou a ser mais um na sala de espera, aquele canto rançoso e de poucos amigos, norteado por aflição, impaciência, tossidas barulhentas e uma televisão velha exibindo a rotineira e tradicional programação da rede Globo.
O verdadeiro entretenimento (se é que podemos colocar desta forma) da sala de espera, entretanto, não estava na imagem chuviscada da TV. O corredor que cruzava a sala de espera era uma verdadeira vitrine de situações. Uma passarela onde o tom vermelho não personalizava o tapete inexistente, mas sim o sangue que escorria dos pacientes. Afinal, o Hospital Cajuru é especializado em traumas, não só físicos como psicológicos. Psicológico para o Francisco, precisamente, que ali se espantava com o vai e vem de macas, enfermeiras e gente machucada como ele.
Dentre os vários casos que ganhavam os olhares alheios na sala de espera, alguns se destacavam para Francisco. Para todo mundo ali presente, na verdade. Uma adolescente aparentando ter 14 anos de idade, morena, de olhos verdes, trajando um uniforme esportivo com traços escolares, ingressava no recinto, agoniando e chorando incessantemente segurando sua própria mão. Para Francisco, “O que será que aconteceu com ela? ”.
As lágrimas da menina eram tão expressivas e convincentes que pareciam compartilhar com o público toda a dor concentrada em seu punho. A demonstração de sofrimento, todavia, era introvertida e inibia qualquer iniciativa de aproximação, de poder chegar e perguntar sobre o seu caso. Ninguém envolta indagou nada a ela. Ninguém mesmo, incluindo Francisco, que só a observava em tom de lamento. Somente a enfermeira, posteriormente, abordou a adolescente e a fez contar que sua mão foi quebrada por conta de uma bola que tentou defender no gol, em um jogo de futebol na sua escola. Uma bela pancada, por sinal, que lhe renderia uma cirurgia de emergência logo mais. Uma pancada que a tirou da semifinal de uma disputa pessoalmente importante. Uma bola tão difícil de intervir quanto difícil de acreditar que tenha sido causadora de tudo aquilo. Pobre atleta.
Pouco depois, a sala de esperava recebia uma mulher de meia-idade, loira, alta, magra e com o dedo quebrado. Sentindo a contusão, embora menos grave que o caso da adolescente, a mulher se apresentara a Francisco. O nome dela é Adriane. 36 anos de idade, casada e mãe de um filho de 11 anos. Adriane contou que trabalha em uma linha de produção pertencente a um frigorífico — palco de seu acidente. Uma peça de carne, pesando cerca de 30 quilos ou mais, se desprendeu do gancho e fraturou brutalmente o dedo dela. Adriane parecia não se preocupar tanto com o ocorrido. Ela estava claramente zangada por ter perdido um dia de trabalho em função da eventualidade. Adriane oscilava seus diálogos entre fúria e sarcasmo, aromatizados pelo cheiro de cigarro que emanava de sua boca. Reclamava muito do emprego e da sua vida em geral. Parecia infeliz e amargurada com tudo. Talvez o ferimento causado pelo pedaço de costela tenha ido além de sua trajetória e alvo. Deve ter atingido sua capacidade de fazer as coisas certas. De ter êxito no que planeja e executa para a vida. Difícil compreender a Adriane dentro de um monólogo tão desequilibrado, rancoroso e pouco específico. Francisco tentava consolar e confortar Adriane, sem sucesso, até que a sala de espera recebeu um outro caso notório que extinguiu o diálogo entre as pessoas e absorveu todas as atenções.
A cena era digna de um seriado médico: um homem grande, bem grande mesmo, era escoltado freneticamente por enfermeiros e policiais até a emergência. O sujeito estava todo baleado, moribundo, e mais se parecia com uma peneira de tão perfurado que estava. A polícia, por sua vez, encontrava-se agitada. Provavelmente a vítima era um bandido de porte grande. Um traficante altamente procurado, quem sabe? Deduções à parte, fato é que a situação toda juntamente com a gritaria e a presença incômoda de pistolas e armas brancas gerou um certo desconforto em todos que estavam na sala de espera. O pé torcido de Francisco já não incomodava mais. A vontade de sair dali só aumentava.
O quadro de casos e acontecimentos que ditavam a ordem do dia na sala de espera funcionava como um anestésico para Francisco. O que era um pisar em falso frente a uma bola desgovernada e detentora de uma força estrondosa? O que era uma “viradinha” de pé contra 30 quilos de material biológico sobre o dedo da mão, além de uma vida permeada por erros e lamentações? Estar entre a vida e a morte então, cercado por mulheres de branco e homens de marrom. Um lado tentando te salvar enquanto o outro, de prontidão, descansa a mão sobre um coldre de revólver. Portanto, sem comparações aqui. A torção fora rebaixada para o segundo plano. O plano mesmo era ir embora logo. Sair da sala de espera. Fazer o bendito raio X e a consulta com o médico para dar no pé de lá, e mancando, infelizmente.
De repente, uma voz ecoou pelo corredor. A palavra era “Francisco!!”. Era a vez de ele ser atendido (finalmente!). O médico diagnosticou que estava tudo bem com Francisco. Receitou compressas de gelo e remédios de nomes estranhos, que ficavam mais estranhos ainda se interpretados pela caligrafia ruim do médico (generalizando um pouco, por que cargas d’água a maioria deles tem a letra tão feia assim?).
O que na hora não ficou muito bem avaliado para Francisco foi a procedência de toda aquela situação inusitada que tomou conta do seu dia. Que loucura! E que fim tiveram aquelas pessoas que tanto chamaram atenção na sala de espera? Francisco concluiu que, diariamente estamos todos contundidos e aguardando atendimento em uma grande sala de espera da vida. Afinal de contas, existem diversos casos, pessoas e situação que passam por nós despretensiosa e efemeramente. Este pensamento superficial e pouco conclusivo pode não ir a lugar nenhum. Tão vazio que fez Francisco deixar de lado toda essa reflexão e continuar atento à programação da Globo, à vivencia genérica e usual que é todo dia exibida em sua televisão.