BIOGRAFIA

Uma autopsia dos meus sentimentos

Desenho por Rachel Anciaux

Olhe que bela flor.

Cabe na palma da minha mão,

mas não quero ela aqui, ou quero?

Tudo o que toco morres,

portanto, assim seria com minha flor.

Então lá, deixarei.


“É melhor”, falaria o biólogo.

“É idiotice”, falaria o perfumista.

Mas não sou nenhum, nem outro.


Sou só um amante, um observador.

Só mais um apaixonado pelas pétalas,

pelo perfume, pelas cores que saltam os olhos

e aceleram o coração.


Sou só mais um.

Quer saber?

Talvez eu devesse deixar essa maldita planta para lá.

O esquecimento vai chegar, e o ceifador também.

Uma hora ai de morrer. Uma hora ai decompor.


É só mais uma flor!

Quando cada gozo seu derramar sob o solo

e toda sua matéria não fizer mais parte desse plano

só restará a lembrança. Do teu cheiro, até seu orvalho.

E seu fim dará origem a uma nova flor.


Cada nutriente seu reerguerá

uma nova e majestosa natureza.

Uma flor diferente, com cores e aromas tão únicos.

Talvez tão bela quanto ela.


Mesmo assim é só mais outra flor.

“É genial” falaria o cronista.

“É triste” falaria o poeta.

A arte deve ter razão.


A solução mais lógica, é colher a flor, mas sem tocá-la,

colocando-a num livro, e esperar.

Para cada flor, uma nova página.

Esse livro, um dia, estará impregnado pelo aroma das flores

sem distinguir o que é flor, e o que é livro.

E tudo será uma mera lembrança, uma mera página.


Só um livro.

Poesia por Vitor Callis