TINTO SANGUE

Homenagem ao Chico. Humanidade à mulher. Honestidade ao Brasil

Fotografia por Sebastián Liste

Adoraria poder acordar calado,

só a ouvir a escuridão dos gritos

que ecoam dos centros urbanos

e que no campo geram arrepios


Fingir de morto no meio da rua.

Testemunhar a desesperança.

Sequestrar tuas ideias brutas.

És o Desvirginar de uma pobre criança.


Pai, afasta de mim.

Cale-se, silêncio meu pai.

Sai, a farsa com fim.

Vinho do Calice esvai.


Sabotador és o criminoso

que burocratiza a felicidade,

dá corda a movimentos receosos,

que põem fogo em todas cidades.


Na fina flor os seus planos brotam.

Na baixa roda as mazelas se instauram.

A Isabel foi faixada do branco.

Preta és a capital da brasa.


Calice, afasta de mim.

Sai, silêncio meu pai.

Cale-se, a farsa com fim.

Vinho do pai esvai.


Inspirar o silêncio da garganta.

Traçar o ventre da labutadora.

Arrancar do seio o que se canta.

Estuprar a classe transpiradora.


Bastarda tu, ó Dignidade.

Teus fios da prata pronta a ser laçada.

Mais uma mãe dá luz à flor da idade.

Mais uma nova infância a ser ceifada.


Sai com o vinho e afasta.

Cale-se, fim do meu pai.

Calice, da minha farsa.

Pai, o silêncio se esvai.


Poesia por Vitor Callis