A longevidade do conteúdo digital

texto publicado em 29/03/2016 no blog da hastashtagcomunicacao.com

Você já parou para pensar na sua trajetória digital, nas pegadas que deixou na rede? A internet cresceu e transformou a comunicação. Nesse crescimento, observamos pouca divulgação sobre os impactos dos nossos rastros na rede ou política de boas práticas. Quem teve Orkut lembra dos nomes das comunidades? Zoeira e cyberbullying eram comuns na rede social. Grupos como: “Faça da Jaca sua Pantufa”, “Lula Estudou Até…”, “Ligo o Ventilador e Me Cubro”, títulos que dizem muito sobre nossos comportamentos, e que mesmo após o fim da rede social, o Google mantém disponível para consulta, porque recordar é viver! Nas comunidades ainda encontramos as conversas e nome das pessoas responsáveis pelas publicações.

As Leis de cibercrimes começaram a surgir nesta década com o aumento de casos envolvendo algum tipo de preconceito, incitação ao ódio, sexo, apologia ao crime, pedofilia e uma série de outras situações consideradas novas e sem precedentes pela justiça. O cibercrime é muito frágil pelo impacto que pode provocar. No entanto, está perto de cair na banalidade pois os casos são cada vez mais frequentes e já fazem parte do nosso dia a dia.

Falar em rastro digital é falar da primeira camada da web. Aquilo que estamos deixando superficialmente na internet mas que causa grandes impactos. Sugiro refletir nas seguintes perguntas: Há quantos anos você está em cada uma das suas redes sociais? Quantos amigos virtuais você tem e com quantas pessoas você compartilha conteúdo? Você sabe com quem está compartilhando hoje? Você interage com blogs e sites de notícias ou é um leitor passivo*? Seus posts geram muitas interações?

Comecei estudar sobre rastros digitais há 6 anos e, desde então, venho refinando minhas redes sociais e os lugares que passo na web. Após a última pesquisa para um trabalho da Hashtag, com foco em adolescentes, passei a refletir sobre a longevidade daquilo que compartilhamos versus as nossas mudanças constantes de comportamento e evolução pessoal.

Resolvi rever postagens antigas. Mergulhar no meu próprio lixo digital. Isso fez com que eu me deparasse com uma forma de pensar que não tenho mais, emoções publicadas sem contextos e que são incompreensíveis até para mim — para entender algumas postagem teria que mergulhar naquele período para contextualizar o conteúdo publicado. Nas minhas publicações, encontrei posts com links quebrados e informações que não são válidas para outras pessoas. Em meados de 2015, Evan Spiegel, CEO do Snapchat, apagou todo seu histórico no Twitter, passando a mensagem de o que importa é o presente. Evan já teve sua conta de e-mail hackeada e e-mails antigos com conteúdo sexista, palavrões e erros de grafia foram divulgados na internet, ele se justificou que aquilo se referia à uma outra fase da sua vida.

Será que nosso passado digital é relevante para os outros? O rastro é eterno mas nosso comportamento sofre mudança todos os dias. É realmente necessário uma pessoa que te conheceu ontem saber sobre o seu passado a partir das suas publicações antigas? Talvez ela seja apenas uma pessoas passageira.

Este tipo pesquisa e análise é comum nos dias de hoje, pois todos somos stalkers no século XXI. Um caso de cyberbullying de 2010, que acabou em morte, retrata exatamente isso: a vítima foi julgada por ter uma conta do Yahoo, pelas perguntas realizadas em fóruns públicos e por ser gay. O acusado realizou a pesquisa com base nos seus interesses e preconceitos e, por isso, não chegou na informação que Tyler Clementi era um importante músico, que contribuía para a comunidade de violinistas, uma pessoa amável e frágil. Será que é possível analisar uma pessoa pelo seu rastro digital? Será que estamos preparados para isso? Eu tive dificuldade de fazer isso com as minhas postagens antigas. Alguma vez você analisou uma pessoa pelo perfil digital e ela correspondeu ao seu julgamento? Dificilmente “fuço” a vida digital do outro, exceto em caso de pesquisas para trabalhos, porque aqui criamos um personagem. São nossos meios de auto divulgação, nossa tendência é editar os melhores momentos e publicar fragmentos de uma situação.

Na última semana de 2015, o time do Barcelona demitiu um jogador 4 horas após a sua contratação, pois foram encontradas publicações feitas por ele em 2013, que ofendiam o povo da Catalunha e o próprio Barcelona. O jogador se defendeu dizendo que nem sabia que estes posts estavam lá. Você lembra de todas as suas postagens que ainda disponíveis para pesquisa? Posts públicos são encontrados facilmente através do Google, Facebook ou ferramentas gratuitas de monitoramento e são utilizadas por pessoas comuns e empresas. O Twitter, em desuso por muitos, mas repleto de contas públicas, contém uma série de publicações abandonadas por seus donos com rastros de uma outra fase do digital, uma fase mais ingenua e talvez muito mais expositiva.

Me recordo de uma notícia de 2012, em que Mark Zuckerberg passou a refletir sobre o conteúdo publicado na sua rede social e pediu para usuários e páginas avaliarem o que publicavam e priorizassem mensagens mais relevantes, mesmo que isso pudesse baixar a quantidade de posts. Era o início do fim do bom dia, boa tarde e boa noite. Foi nesse ano que ele começou a rever o algoritmo de entrega de postagens, devido o volume médio de publicações que já eram feitas naquela época.

Trabalho com rastro digital, mas não sou isenta de deslizes, por isso resolvi fazer esta experiência nas minhas mídias mais antigas: Twitter e Facebook. Analisar o conteúdo digital antigo é mergulhar na autoanálise, se você não estiver predisposto para ver seu lado negativo nem comece. Rever o Twitter foi até simples, a ferramenta não tem tantos bugs, mas não é nada fácil chegar na primeira postagem (se as redes sociais quisessem essa limpeza teriam a opção: selecionar tudo e deletar). O Facebook dá muito mais trabalho pelos erros na plataforma, ele sofre atualizações contantes, e talvez por causa disso, outras funcionalidades vivem instáveis. No meio da experiência me questionei sobre como foi feita esta parte do Facebook, pois não tem usabilidade e a tecnologia é toda falha. No meio da limpeza até encontrei uma forma de selecionar e deletar, mas se você se deparar com ela verá que não é nada funcional. Deletar rastros antigos no Face requer a paciência de Jó.

Mas apagar é correto? Depende de cada um. Eu analisei que minhas postagens antigas sobre mim ou qualquer opinião que não seja mais condizente com meu momento do agora não são relevantes para as pessoas que eu estou conectada. O Facebook mantém tudo registrado, até aquilo que você escreve e não publica, e não temos como fazer nada quanto a este sistema, exceto refinar cada vez mais o que escrevemos na internet.

Em 2010, quando comecei este estudo, a minha primeira reação foi deletar minhas contas, mas com um currículo com foco em digital eu acabei me rendendo. Dessa vez, com um pouco mais de consciência. Consciência esta que venho trabalhando e evoluindo através de estudos e pesquisas na redes e diferentes referências sobre comportamento humano.

*Nenhuma navegação é livre de rastro. Mesmo que você não faça nenhuma interação (curtir, comentar ou compartilhar em sites ou redes sociais), seu IP registra tudo que você lê e pesquisa, há ferramentas que identificam partes do conteúdo que você achou mais relevante pelo tempo que você passou na página e pelo comportamento do seu mouse. Se você optar por uma navegação anonima, saiba que o “user fingerprinting” identifica o usuário pelo movimento do mouse, dessa forma burla até mesmo o TOR, utilizado para mascarar o acesse e navegar em sites da Deep Weeb.