Feice, o fim de um relacionamento.

Aproveitei os últimos acontecimentos do Fabebook, Cambridge e alterações de algoritmos, para sair da rede social. O motivo não foi só porque estava exposta, mas porque na minha visão ele se enrolou numa meada mal feita e está todo enozado na sua ânsia de crescer sem consistência.

Desde 2010 que percebo movimentos de Facebookcídio, como nomeou o Papo de homem, em 2013. Influenciadores e conhecidos relataram que depois de deletar a conta perceberam diminuição na ansiedade. Desativei minha conta toda vez que me senti sufocado por ela, mas eu trabalho com digital, meu uso é superior à dos simples usuários, por isso é recomendado fazer pausas.

Como tudo começou

Criei minha conta no Facebook em 2009, fiz minha primeira campanha na rede em 2010, ano que o Twitter era a mídia queridinha das marcas e veículos. A TIM era um dos grandes cases daquela época e hoje sofre bullying nas redes sociais. Para planejar aquela campanha pesquisei os pontos positivos e negativos das mídias digitais.

Foi aí que eu comecei a surtar! Como eu trabalhava com internet desde 2002 e não tinha prestado mais atenção nesse assunto? Como eu estava fornecendo informações pessoais para um sistema que reúne todos meus dados e pode traçar meu perfil com precisão? Por que eu deveria manter conexões com pessoas que já passaram pela minha vida, que provavelmente o Universo não as traria de volta se não fosse a internet? Não sei se Budha acharia legal essas conexões eternas.

Essas reflexões me fizeram sair pela 1ª vez Facebook. Porém, logo depois, em conversa com um profissional de mídias digitais, me vi sem saída e retornei para ele, pois naquela época o grande diferencial do meu currículo era o digital e eu precisava pagar as contas.

Voltei, mas consciente que eu deveria ficar com o pé atrás. Deixei menos rastros desnecessários, não publiquei mais fotos pessoais (o que me rendeu o título de “garota estranha”), nunca fiz cheking, não permitia que as pessoas publicassem no meu perfil , marcações não podiam ser visualizadas pelos meus amigos sem minha autorização, não publiquei fotos de amigos e familiares, nem nunca adicionei família, por uma questão de proteção aos outros e porque aquele espaço era meu local de trabalho. Desfiz amizades com pessoas que foram muito passageiras, bloqueei pessoas na qual a relação se tornou insustentável. Mantive todas as minhas postagens abertas, porque depois do print e do compartilhar não existe mais publicação privada.

Tive deslizes? Muitos! Mandei indiretas toda vez que postei sem pensar, atitude que deu um certo trabalho apagar. Aliás, tudo que se refere a apagar dá muito trabalho dentro do Facebook. Apagar rastros ou apagar contas não é fácil, é similar a cancelar um cartão. Vão tentar te vencer pelo cansaço e você precisa estar decidido para sustentar a decisão.

Apagar rastros

O meio mais fácil de apagar rastro é deletando pelas memórias diárias do Facebook, sua pontuação no klout tende a cair, mas vale refletir se as postagens anteriores ainda remetem a sua forma de pensar.

A sua linha do tempo também pode ser consultada para rever posts, likes e comentários. Eu tinha muita coisa, por algumas vezes perdi horas revendo rastros e limpando. Ele não permite selecionar posts e deletar, você precisa fazer isso manualmente, um por um. Qualquer clique errado você muda de página e precisa começar tudo de novo.

Desativar conta

A maior pegadinha do Facebook é “desativar conta”. Existe uma diferença entre “desativar conta” e “excluir conta”. Percebi que poucos entendem que desativar conta é temporário ou sabem que é possível excluir uma conta de forma “permanente” (cada site e cada país possuem suas próprias politicas de armazenamento. O Facebook mantém suas informações por 90 dias, mas caso tenha troca de mensagens com outro usuário essas informações pode ficar disponíveis por tempo indeterminado e podem ser acessadas mediante a ordem judicial. No Brasil, pelo Marco Civil da Internet, a informação fica armazenada por um ano e da acesso ao endereço de IP, data e hora de início e término da conexão à Internet, não incluem endereço de sites e mensagens trocadas).

Desativar conta é pedir um tempo no relacionamento. É deixar algo inacabado com esperança que o lado que tomou a iniciativa pode mudar de ideia se der saudade, necessidade ou carência.

Nesse momento o Facebook te faz uma série de perguntas com respostas mal elaboradas. Seguem as minhas preferidas:

Eu não acho que o Facebook seja útil.

O Facebook é útil, apenas é mal administrado e mal utilizado. Nesses 8 anos, pude manter contato com pessoas queridas que estavam distante, obtive cases muito legais com meus clientes, descobri projetos incríveis que rolam pelo mundo e uma série de outros benefícios. A resposta acima sugere que você aumente as conexões, o que significa passar mais tempo na rede e se expor mais. Já conteúdo da “central de ajuda” contém um manual básico de sobrevivência: como postar, trocar foto, fazer amigos... na minha opinião, ambas as sugestões são pouco persuasivas para fazer com que alguém mude de ideia sobre sair da rede.

Eu gasto muito tempo usando o Facebook

Sim, poderia ser essa a minha resposta. No caso de um usuário comum, o número de notificações pode fazer com que ele acesse mais a rede social, mas acredito que só a disciplina cure. A ausência de notificação pode gerar ansiedade e acessos desnecessários para ver se alguém escreveu.

Se você decidiu sair porque seu tempo está sendo desperdiçado, dificilmente vai se adaptar a essa promessa. No início vocês vão bem e no fim só você estará sugado.

Preocupo-me com a privacidade

Considero essa a pior resposta. Cambrigde Analytica está aí para provar que privacidade não é o forte das redes do Mark, principalmente se você for o usuário que faz até teste digital. Você sabe que ao fazer um quiz você dá acesso às suas informações pessoais, a sua imagem e dos seus amigos, para a empresa que organiza os questionários e todas as suas empresas parceiras?

“há sempre o risco de um dia tudo isso vazar e muita coisa sensível (como seu nome, email e telefone) parar nas mãos de cibercriminosos que podem tentar aplicar golpes como phishing. E esses são apenas dois cenários.” Site Guizmodo 02/2018.

Excluir conta

Para encontrar o link da exclusão permanente eu acabei recorrendo ao Google, pois não encontrei o botão com facilidade. Excluir poderia ser mais rápido, mas isso envolve todas as contas que você tem conectada ao Facebook, como o Spotify, o Uber, e outros sites e apps. Por conveniência/preguiça, eu criei muitas contas automáticas com API do Facebook, me fiz de cega para as consequências do rastro e o tamanho do banco de dados que estava gerando.

A facilidade das conexões com pessoas e API mantém muitas pessoas conectadas ao Facebook.

O Facebook faz ajustes e melhorias diariamente, mas a massificação da mídia fez com que muitos migrassem suas postagens para outras plataformas. Canso de ouvir usuários assíduos de Instragram e Whatssap expressando com orgulho que não usam mais o Facebook, que mantém a conta por causa de amigos que só existem lá, dos eventos, da facilidade da conexão com outros aplicativos e sites… Fazendo apenas isso você já está alimentando muito o Facebook.

Eu vou ter uma vida mais protegida saindo do facebook? Não, eu apenas vou fazer esses rastros em outros lugares. Tenho pelo menos 10 outras redes. Não acredito que seja possível viver de forma totalmente privada e fora desse sistema, mesmo porque os rastros são eternos e sair da rede social não significa apagar o rastro.

Deletar minha conta no Facebook é como terminar um namoro longo, eu vou ter que desapegar daquela companhia. Haverá momentos eu vou sentir que seria mais fácil estar com ele, principalmente no início. Eu vou sentir saudades dos amigos que só com ele era possível, mas em todos os outros momentos eu vou ver que é melhor assim, pois sobra mais tempo pra mim.

Excluir a minha conta também não implica em não estar na rede, há perfis de amigos e páginas com menção para meu nome, as mensagens privadas também ficam a disposição dos destinatários. São informações que não tenho controle para remover e que solicitar remoção não é simples ou fácil.

Não saí do Facebook porque vou me sentir mais segura longe dele, pois eu tenho o Instagram e o Whatssap, que é como namorar o irmão do ex, tudo permanece em família. Sai dessa rede social, pois não vejo mais necessidade de estar lá com perfil pessoal para trabalho. Os caminhos também mostram que é possível uma marca voltar a prosperar em ambiente digital sem ser no Facebook, dependendo do seu nicho. Os clientes estão cansados das mudanças do algoritmo e nem todos entendem que só é possível fazer comunicação digital com investimento um pouco mais alto, principalmente quando seus usuários estão migrando para plataformas ainda de baixo custo.

Foi fácil terminar? Não, relações baseadas em apego, conveniência e comodismo são difíceis de se desfazer e o Mark é mestre na amarração. Deu trabalho agilizar tudo que eu precisava organizar para sair, muitas coisas estavam atreladas a trabalho e eu não podia simplesmente jogar tudo para o alto e sair. No processo final, o Facebook faz aquele drama, te mostra umas carinhas e diz “essas pessoas sentirão sua falta, Ca” :(. Realmente algumas conexões possivelmente se perderam, mas as pessoas que realmente são presentes já estão em outras redes e o contato existe independente da internet.