Você sabia que fotos de crianças publicadas nas redes sociais alimentam a pedofilia?

O Facebook recentemente me lembrou de uma matéria de 2015, que trazia o dado que 50% das imagens retiradas de um site de pedofilia, cerca de 22 milhões de fotos, provinham do Facebook e do Instagram. Imagens que mantinham a inocência da criança em momentos na escola, datas festivas, férias e que eram acompanhadas de comentários perturbadores e extremamente erótico.

Analisando a polêmica da ação do MAM foi impossível não relacionar essa notícia antiga ao debate atual. Resolvi ressuscitar um tema que sempre tive grande interesse: os riscos do rastro digital infantil, que tem como consequência a pedofilia, o cyberbullying, sequestros, big data e até a morte.

Se abrirmos uma discussão sobre ter ocorrido pedofilia ao expor uma criança diante de uma pessoa nua, sem avaliar a arte, a presença de corpo e o comportamento conservador ainda marcante na sociedade paulistana, precisaremos falar que toda pessoa que expõe uma criança nas redes sociais está colaborando com pedofilia. Sim, a foto que você acha inocente pode ser usada de diversas formas por um pedófilo. Eu sei que seu perfil é fechado, que você só posta assim ou assado, mas se a sua rede tiver um amigo você não tem mais controle sobre a informação.

“Os pais devem ser conscientes de que os riscos existem mesmo sem que os filhos saiam de casa. Ao mandar uma foto de uma criança aos avós, eles devem ter em conta que estão mandando aquela imagem para o mundo. É preciso saber que quando se está online, se está em público”. Ernie Allen um dos maiores especialistas do mundo no combate a crimes de exploração infantil

A pedofilia é um dos casos mais preocupantes que a internet facilitou a prática. Pedófilos usam as redes como forma de satisfazer suas fantasias sexuais através de fotos publicadas por familiares e crianças com perfis próprios. A internet favoreceu a troca e o comércio de fotos e vídeos, um mercado que movimenta milhões de dólares no mundo todo. Estima-se que o valor desse material digital pode variar entre U$400 e U$6.000, segundo artigo publicado pelo site DireitoNet. O valor varia de acordo com o conteúdo comercializado, que pode ser uma criança sendo torturada até a morte.

É dever dos pais proteger e zelar pelas crianças nos primeiros anos de vida. Estar em casa já não é seguro como foi na nossa infância. O Tribunal da Relação de Évora, em Portugal, centrou uma decisão na questão da insegurança e privacidade online de uma menor, e impôs que os pais de uma criança de 12 anos não divulgassem fotografias ou informações que permitissem identificar a filha nas redes sociais. Essa é uma questão muito mais trabalhada na Europa, onde se é discutido e praticado o direito à proteção de identidade digital de crianças e adolescentes.

No episódio MAM, a criança, que pode ter 4, 5 ou 6 anos, depende da fonte, foi levada por sua mãe, que a acompanhou conscientemente todo o processo. A criança, que naquele momento estava sendo introduzida a arte, e poderia crescer livre de alguns tabus e preconceitos, agora tem suas fotos, vídeos e mãe como tema das principais mídias. O vídeo dessa criança pode instigar um pedófilo, pois, uma pessoa que assistia o ato filmou e publicou em uma rede social. O conteúdo foi compartilhado por milhares de pessoas repercutindo de forma extremamente negativa.

Um dos diversos posts do MBL sobre o tema diz que a releitura da obra de Lygia Clark, “O Bicho”, foi pretexto para estimular uma criança a tocar em um homem nu. Os veículos de comunicação ou usuários das redes sociais não pouparam comentários de ódio ou malicioso para se referir ao que se supõem que essa criança passou. Também não analisam o que essa criança pode estar vivendo após a repercussão da informação e como será o futuro dela quando se deparar com os comentários negativos sobre seus primeiros anos de vida, deixado por pessoas que ela nem sabe que existem. O vídeo publicado e compartilhado por importantes veículos de comunicação infringiu uma regra básica da cidadania digital, que mesmo que seja para divulgar algo, você não deve usar a imagem de uma criança na rede.

Naveguei na página do MBL e de alguns de seus comentaristas em busca de rastros de crianças. Foi necessário entrar em apenas 3 perfis, menos de 20 min de pesquisa, para encontrar rastros com presença de criança, obtive êxito em 2 deles. Um deles, um político carioca, que fez um vídeo relacionando a pedofilia ao evento, tinha entre as primeiras fotos do álbum a exploração da imagem de duas crianças.

Se formos acusar arte como pedofilia devemos acusar toda a população que promove imagens de criança na internet.

Para muitos pais, os filhos são o que há de mais precioso, mas se são mesmo, por que não preservá-los também dos perigos presentes na internet? Além dos riscos citados acima, estamos criando um banco de dados precioso e preciso de todas as crianças nascidas neste século, muitas destas possuem rastro desde o momento que foram geradas. Você pode enteder um pouco melhor sobre isso no texto do Camilo Rocha, publicado no Estadão.

“Queridos pai e mãe, preciso falar de um assunto bastante delicado. São as minhas fotos que vocês têm subido nas redes sociais. Eu entendo que vocês as postam com muito amor no coração e orgulho, sem falar que os amigos dão muitos comentários e ‘likes’ nelas, mas eu preciso que vocês deem uma freada nisso”.