Resenha: Tudo e Todas as Coisas

Autora: Nicola Yoon

Editora: Arqueiro

Páginas: 280

“Bem debaixo do nosso nariz existem mundos inteiros que mal notamos.”

Dizem que “os olhos são as janelas da alma”… mas, e se não houver nada a visualizar dentro dessas janelas? E se além de existir um confinamento físico, exista um mais forte e destruidor dentro do emocional? Prisões ou cercas nos impedem de enxergar o que há além do nosso estreito e vazio campo de visão, por esta razão, pessoas trancafiadas, tanto fisicamente como emocionalmente, deixam de viver, abrem mão de ter memórias, por mais simples que sejam. Como iremos então saber como são todas as coisas que só vemos ou lemos em vídeos e livros?

“A diferença entre saber e ver ao vivo é como a diferença entre sonhar que estamos voando e voar de verdade.”

O mundo e a vida são vastos, por isso, quero citar apenas alguns simples e naturais movimentos da vida, tais como o sentir o calor do sol de uma tarde de verão em nossa pele. A dor de um corte no pé por um minúsculo caco de vidro na areia da praia. As horas que voam vagarosamente no tempo enquanto pedalamos contra o vento que nos abraça. A adrenalina de estar diante de um enorme abismo, sem pensar em mais, a não ser em soltar o corpo para um salto de uma extensa e radical tirolesa. O gosto maravilhoso do sabor da vitória sobre o medo do novo, quando mergulhamos em um profundo oceano… ou quando descobrimos que existe dentro desse corpo materialmente frágil e inseguro a existência grandiosa de um sopro de sentimentos que estavam adormecidos, aguardando que algo ou alguém os estimule a sair da caverna fria e sombria, que é o esconderijo para quem não quer sentir com intensidade as emoções do viver, antes que a vida os leve. Fico a pensar: se não estamos vivendo e nem tampouco sobrevivendo, o que estamos fazendo do dom de existir? Quando por um relapso o empurramos para dentro de bolhas ou muralhas que construímos ao redor de nossas casas-essências…

“A doença que eu tenho é rara e famosa. Basicamente, sou alérgica ao mundo. Não saio de casa. Não saí uma vez sequer em 17 anos. As únicas pessoas que eu vejo são minha mãe e minha enfermeira, Carla.”

No livro Tudo e Todas as Coisas, de Nicola Yoon, a personagem Madeline Whittier, 18 anos, compreende perfeitamente tudo isso que descrevi por precisamente sentir em sua pele, não por sua escolha ou por medo, mas porque seu corpo abriga uma doença chamada IDCG (imunodeficiência combinada grave) que sem pedir permissão a bloqueou de vivenciar todos os ciclos da vida em sua história. Por conta disso, a liberdade foi retirada de seu alcance, a impedindo do conhecimento real sobre o que é viver tudo e todas as coisas que estão do lado de fora de sua casa.

“Antes de conhecê-lo, eu era feliz. Mas agora estou viva, e as duas coisas são bem diferentes.”

Sua rotina a partir de certa idade foi vivida a pesquisar e tentar mesmo de modo platônico conhecer, tocar, visualizar e sentir o que é a Existência, com todas as surpresas e naturalidades que a cabem. Isso, Madeline só pôde superficialmente conhecer através das páginas dos inúmeros livros descontaminados que preenchem sua estante branca, dentro de seu quarto branco, onde ela passa horas sentada em seu sofá branco… Porém, um dia sua audição foi despertada pelo som raro de vida e rotinas que não fazem parte de seus dias. Ao ultrapassar àquelas paredes, o barulho de vida a levou até a janela, e foi por meio do bloqueio daquele vidro que a sua visão alcançou novas cores e novos olhares procurando um espaço em seu ambiente tão embranquecido.

“Tudo envolve riscos. Não fazer nada também é arriscado.”

Essas novas vibrações trouxeram anseios e vontades nunca antes percebidas nessa jovem de apenas 18 anos, quando conheceu uma vida que ousadamente fazia uso da liberdade, pulsando energia, ignorando regras, espaços e limites. Sem cerimônia ou palavras programadas um Anjo a convidou a Viver!

“Só porque você não pode experimentar tudo não quer dizer que não deva vivenciar nada.”

Ao ler a sinopse desse best-seller, fui levada a refletir sobre algumas portas em minha casa interna e cheguei a um questionamento: os livros nos encontram ou nós nos reconhecemos neles? Não tenho a resposta e nem sei se a terei diante de tantos pedaços de minha história soltos nos livros que já li ou em futuros textos que ainda não nasceram, mas isso não importa, porque cada leitura revela um novo capítulo de nossa vida, dependendo do atual momento que estamos passando. Isso é mágico e precisa somente ser experimentado com total avidez! Se esse encontro foi possível é porque mais uma peça do imenso quebra cabeça que somos, recebeu a vida, tornou-se evidência e se encaixou em nossa história, para nos lembrar ou ensinar o necessário para o agora, enquanto estamos no longo caminho de nossos dias.

“Se minha vida fosse um livro e você o lesse de trás para a frente, nada mudaria. Hoje é igual a ontem. Amanhã vai ser igual a hoje.”

Foi nessa narrativa tão doce e simples, que encontrei impactantes e ousadas reflexões sobre o que o somos, o que temos feito de nosso agora e o que poderemos escolher diante de uma porta que inesperadamente poderá se abrir diante de tantos questionamentos, incertezas e “nãos” que foram enclausurados em nossa vida por nós ou por diversas situações adversas.

Nunca na vida quis tanto estar fora da minha pele.

Através dos pensamentos de Madeline é possível olharmos para dentro de nós mesmos e repensarmos o que temos feito com a mensagem que sempre nos convida e espera do lado de fora de tantas janelas mostrando universos que se materializam por meio da família, dos amigos, dos sonhos, das profissões, dos medos, dos amores, das desilusões, de tudo e todas as coisas que estão à espreita, com certa urgência esperando a nossa resposta, mesmo que a verdade diga: “O mundo não vai a lugar nenhum”.

“A vida é muito mais do que simplesmente sobreviver.”

Através dessa surpreendente e sensível história, Nicola Yoon nos embriaga com sua doce visão sobre a vida e o amor, pois a mesma se reconhece como uma pessoa “romântica incurável que acredita ser possível se apaixonar num instante e que isso pode durar para sempre”… Porém, é também perceptível que o seu romantismo está além do que sempre há nos Romances, pois a sua inspiração poética unida à sua escrita singela, abrem diante de nossos olhos um imenso leque de paixão voraz pela vida, seja ela com lágrimas, sorrisos, decepções, morte, vida, alegrias, mágoas e muito mais que vivenciamos nos cotidianos a cada amanhecer e anoitecer… Apesar de e sobre tudo, Tudo e Todas as Coisas, me levou a acreditar que essa obra literária foi escrita para simplesmente nos lembrar a cada decisão tomada e página virada que…

“…A vida é um dom. Não se esqueça de vivê-la.”

Avaliação:

A Autora

Nicola Yoon é autora do best-seller Tudo e Todas as Coisas, cuja adaptação para o cinema estreia em 2017. Ela nasceu na Jamaica, cresceu no Brooklyn e mora em Los Angeles com a família. É uma romântica incurável que acredita ser possível se apaixonar num instante e que isso pode durar para sempre. O Sol Também é Uma Estrela é seu segundo livro. Ele foi considerado Melhor Livro do Ano por Publisher’s Weekly e Amazon e foi finalista do National Book Awards 2016.

Originally published at www.leiturasdapaty.com.br on June 28, 2017.