Crítica de ‘A Letter Home’, do Neil Young

Canadense revisita clássicos da música folk com sonoridade da década de 1940

Sabemos que disco de covers, em geral, é um artifício usado por bandas em crise para bater o ponto e cumprir contrato. No entanto, o que esperar de um disco de covers feito por alguém que carrega em seus ombros uma carreira de meio século notória por surpreender o público? Uma surpresa, claro. Com A Letter Home, lançado em 2014, Neil Young exibe seu lendário domínio sobre a música folk com o acréscimo de uma atmosfera única obtida através do uso de uma tecnologia do passado.

Voice-O-Graph é uma invenção da década de 1940 que consiste numa cabine com um gravador do tamanho de um telefone, que permitia que as pessoas gravassem uma mensagem de voz num pequeno disco de vinil. Algo semelhante a um telegrama falado. Duas décadas depois essas cabines se tornaram obsoletas e caíram no esquecimento até que a Third Man Records, estúdio do Jack White, adquiriu uma e a reformou.

Hoje ela está disponível ao público e é usada para gravar todo tipo de coisa, como pedido de casamento, testamento e, é claro, música.

E foi justamente nessa cabine que foi gravada essa seleção de canções compostas por figuras consagradas da música folk, como Bob Dylan e Willie Nelson, e também nomes mais desconhecidos, como Tim Hardin e Bert Jansch. Os covers são executados pelo veterano canadense em versões acústicas, apostando numa simplicidade que realça a beleza e delicadeza das composições. O resultado se torna ainda mais especial devido à sonoridade obtida pela gravação analógica do Voice-O-Graph, um som de baixa definição com imperfeições e ruídos que te dão a sensação de estar ouvindo um gramofone, algo que seria impossível obter de forma digital. Parece que Neil Young entrou no DeLorean com um violão, voltou no tempo e depois retornou ao presente com esse álbum de baixo do braço.

Muitos admiradores de músicos e bandas dos anos 60 e 70 negligenciam seus trabalhos recentes, partindo do pressuposto de que eles perderam a relevância ou qualidade com o passar do tempo. Quem pensa dessa forma está certo em muitos casos, entretanto comete uma injustiça com Neil Young, que segue lançando discos que merecem ser ouvidos. E a prova disso é A Letter Home, que se encaixa em sua extensa e versátil discografia como seu trabalho mais intimista. Uma experiência sensorial perfeita para uma noite ao lado de uma fogueira.

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