Neil Young e a Maldita ‘ Trilogia da Fossa’
Dramas pessoais e profissionais levaram o canadense a um período de fracassos comerciais

Embora Neil Young estivesse em franca ascensão no começo da década de 70, ele não tinha ambições de atingir o estrelato. No entanto, foi isso o que aconteceu quando o álbum Harvest e o single Heart of Gold, lançados em 1972, chegaram ao topo das paradas. Entretanto o status de astro e as expectativas de acomodação só deixaram ele entediado e desinteressado com a posição que havia conquistado. Mal sabia ele que naquele momento ele estava no topo da montanha russa e que nos anos seguintes ele passaria por uma vertiginosa descida de tempos difíceis e turbulentos tanto em sua vida pessoa quanto em sua carreira.
A próxima turnê seria a maior que ele já havia feito, mas durante os ensaios o guitarrista Danny Whitten, seu grande amigo, não estava em condições de tocar devido a seu consumo abusivo de drogas. Neil tirou Danny da banda e mandou ele de volta para casa e logo depois ele teve uma overdose fatal, o que fez com que Young se sentisse arrasado e responsável pelo ocorrido. E ali era dada a largada à sequência de discos que seria conhecida como “Ditch Trilogy”, algo que poderia ser traduzido como “Trilogia da Fossa”.
Time Fades Away foi gravado no que era para ter sido a turnê de Harvest. Porém Neil Young, querendo se afastar da fama, resolveu tocar apenas músicas nunca antes lançadas, o que não agradou nem um pouco aos fãs. Nessa turnê, onde ele fez 62 shows (muitos deles em grandes arenas) em apenas três meses, rolou todo tipo de problema: De insegurança e problemas com a voz de Neil Young à guitarra que não permanecia afinada, passando por problemas financeiros, banda que não funcionava ao vivo e shows sem passagem de som.
O resultado foi o que Neil considerou gravações de uma banda horrível fazendo shows horríveis durante um momento horrível. O disco só foi lançado porque ele considerou como uma espécie de documentário, um retrato daquele momento de sua carreira. Os fãs, esperando uma sequência de Harvest, odiaram e o Time Fades Away foi um fracasso de vendas.
Tonight’s the Night foi gravado poucos meses depois com uma nova banda num período onde Neil Young ainda estava muito afetado pela morte Danny Whitten. Para piorar ainda mais, em meados de 1973, o roadie Bruce Berry, outro grande amigo dele, também morreu por conta de uma overdose. Todo aquele baixo astral influenciou diretamente a gravação, o que resultou num disco de luto, com um tom sombrio e fúnebre e sonoridade crua. A gravadora, ainda contrariada com o fracasso comercial Time Fades Away e ainda à espera de uma continuação de Harvest, decidiu não lançar Tonight’s the Night.
On the Beach foi gravado em 1974 por um Neil Young tentando fazer músicas mais melódicas e animadas. No entanto, o compositor canadense ainda sentia o peso das turbulências que estava vivendo, com isso o resultado ainda trouxe um pouco da crueza e do tom sombrio de Tonight’s the Night. Sem contar que as letras do disco estavam repletas de pessimismo e decepção em relação àqueles tempos, pós vietnam e pós movimento hippie, com a evidente decadência dos ideais sessentistas. Os fãs, ainda à espera de uma sequência de Harvest, odiaram e o disco foi, novamente, um fracasso de vendas.
No segundo semestre de 1974 Neil Young fez uma turnê descomunal e bem sucedida com Crosby, Stills e Nash. A gravadora, no começo do ano seguinte, se apressou para aproveitar a alta popularidade dele e lançar Tonight’s the Night. O público e a crítica ficaram chocados ao ouvir que esse disco trazia em doses ainda maiores tudo aquilo que eles haviam detestado no anterior: o baixo astral chegava a ser fúnebre e a (falta de) mixagem trazia uma crueza sonora de proporções dolorosas. Os fãs, que ainda não tinha desistido de esperar uma sequência de Harvest, odiaram aquilo e o disco foi mais um fracasso de vendas.
Depois disso, em 1975, Neil Young terminou de gravar mais um disco muito pessoal e doloroso, mas resolveu não lançar. A fase fossa já havia passado, então aquelas faixas foram inseridas em seus trabalhos posteriores. E assim, ainda naquele ano, foi gravado Zuma, um disco vigoroso com guitarras distorcidas e letras (predominantemente) sobre relacionamentos amorosos mal sucedidos.
Hoje em dia os discos da Trilogia da Fossa deixaram de ser vistos como malditos na prolífica e versátil discografia de Neil Young. O rancoroso Time Fades Away, o decepcionado On the Beach e o deprimido Tonight’s the Night hoje ganharam status de cult são muito mais apreciados do que foram na época de seus lançamentos.
