Já diziam os Rolling Stones

Na mitologia grega, as moiras eram três irmãs que determinavam o destino dos deuses e dos humanos. Eram figuras lúgubres responsáveis por fabricar, tecer e cortar aquilo que seria o fio da vida de todos os indivíduos.

A Humanidade foi se afastando de suas crenças iniciais e, hoje em dia, o conceito de destino perdeu lugar na sociedade moderna para discursos motivacionais exaltando a meritocracia, dizendo que o seu caminho é você, e só você, quem constrói. Somos muitos tolos porque, na verdade, tem três mulheres sim tecendo a vida de cada um. Tinham que ser mulheres, claro, porque tamanha riqueza de detalhes e preocupação com uma série de questões não poderiam ficar a cargo de homens, mesmo num contexto meio sobrenatural em que tudo seria possível. Não.

Essa negligência em reconhecer este fato é a principal raiz de uma infinita gama de dores de cabeça. Por exemplo, cada um tem o seu quoficiente pré-determinado de beleza máxima a alcançar em vida, por isso vemos tantos casos de pessoas bonitas que, na ânsia de ficarem ainda mais bonitas, acabam se transformando em monstros que mais parecem caricaturas do molde divino determinado antes mesmo de dar o primeiro suspiro fora do útero. “Mas as pessoas também se aperfeiçoam”, você diz, descrente. Claro que elas podem ficar melhores, porque a elas foi permitido no desenho original entrar no crossfit e ganhar um abdome rasgado, consertar o nariz que gerou cicatrizes de bullying durante a infância e assim por diante. Mas ultrapassar o desenho original? Aí não, meu bem, tá querendo demais.

Outro grande problema em não reconhecer que você foi feito para avançar até certo ponto é aquela situação que sua mãe analisa, vira pra você e solta “tá querendo demais, hein?”. Pode parecer duro, mas a cada um de nós só é permitido ir até determinado ponto de avanço, alcançar até um determinado pico de felicidade e realização. Nos sentimos incompletos e inadequados por não estarmos cientes disso e, em vez de ficarmos agradecidos por termos chegado até o ponto final e parar por aí na ansiedade, ficamos querendo mais e mais, como se isso não passasse de um sonho irrealizável. “Mas tem as pessoas que batalham e conseguem calar a boca de todo mundo e chegar num ponto muito mais longe do que aparentemente lhes foi designado”, você diz, evocando histórias de superação encenadas no cinema por Will Smith, mas o foco é no “aparentemente”. Essas pessoas têm dentro delas um conjunto de ferramentas, muitas vezes ocultas, que nem todo mundo tem, a vida delas veio com bônus e figurinha premiada, o fio saiu longo e meio dourado, sabe como é, existe toda uma gama de materiais têxteis pra montar um ser humano. Se fulano conseguiu matar todos os dragões do caminho e ser feliz, por que eu não posso? Porque você não pode. Nem sempre conseguimos aquilo que queremos mas, se pans, você enxerga que conseguiu o que precisa.

Nessa de querer demais, acabamos ficando como o cachorro que persegue o próprio rabo, girando em círculos num frenesi entre a fúria e a ignorância, e se por acaso conseguimos morder a ponta, dá um tranco na coluna, você fica perdido em dor e confusão e, no final das contas, nem sabe mais o que tá perseguindo porque seu dono chegou com um biscoito, estourou um rojão na rua, alguém gritou. Dizem que os cachorros fazem isso por uma série de fatores que vão desde tendência a comportamentos compulsivos, ansiedade e chamar a atenção do dono pois esses bichos são espertos demais e sabem que a gente se diverte com qualquer porcaria. E, assim como os cachorros, depois de um tempo a gente se engana novamente e volta a perseguir o mesmo rabo, ignorando experiências passadas e se apoiando na esperança de que vai ser algo diferente, divertido e satisfatório quando, no final das contas, acabamos machucados e sendo motivo de chacota das pessoas da casa, um tanto sádicas, que acham muito bonitinho a inocência alheia mas que, se fosse com elas, já iam dar chilique.

Não parece algo muito justo, mas, diante de tudo o que a gente vive nessa estrada esburacada que é a vida, não sei como ainda esperamos que alguma coisa o seja.

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