Movimento

Cig Harvey

Quando eu era criança eu tinha um par de patins. Não andava muito bem e não tinha muito controle sobre rodas. Um dia, descendo uma quase ladeira, perdi o controle e não sabia o que fazer. Tinha um poste no meio do caminho e usei ele pra me parar, batendo direto com a pélvis no concreto, pois não consegui esticar os braços. Não me aconteceu nada além de ter doído um pouco e, mais importante, parei.

Um dia eu resolvi andar na minha rua, que tinha uma leve inclinação. Minha cabeça foi ficando meio leve, num princípio de desmaio que seria a reação padrão toda vez que eu pegasse velocidade desde então, de patins ou bicicleta. Não sabia como fazer pra parar. Tinha um carro estacionado. Fui direto pra ele. Usei as mãos pra me segurar e parei.

Nunca mais andei de patins ou bicicleta e ir de encontro a algo violentamente para poder parar continuou sendo a minha estratégia, agora muito mais metafórica do que literal. Fiz isso muitas vezes. Doeu. Mas, em todas, eu parei.

Talvez desde aquele dia do patins e do poste eu tenha criado em minha mente a ilusão de que o choque é inevitável mas tudo bem, pois sou indestrutível. O lado ruim é que não sou. E em vez de saber como parar, eu deveria aprender a continuar.

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