Um 2012 longo como 1989

Após chegar à conclusão de que muito do que pertenceu à coleção de eventos do ano de 2012 estava me perseguindo nos últimos dias (na verdade, meses), procurei a validação astrológica da correspondência entre aquele e este ano. Obtive-a do amigo das ciências místicas: “2012 é o ano mais longo da nossa geração. Como 1989, ainda teremos desdobramentos de ambos por muitos anos”.

Descobrir estar sob o controle de uma espécie de maldição fez com que eu me sentisse, de certa forma, livre — a cura é não haver cura.

1989. Se não me engano, é o seu ano. 
2012, o meu com você.

You who are so far from me

Em The Secret Life of the Love Song, Nick Cave fala sobre algumas de suas músicas; dentre elas, uma das minhas favoritas, Far From Me. Ela é a penúltima música do The Boatman’s Call, meu álbum favorito dele com os Bad Seeds, recheado com as mais belas canções de dor de cotovelo, em grande parte inspiradas pelo curto e intenso affair com PJ Harvey. Imagine.

Cave conta que a música levou quatro meses pra ser escrita, a duração do relacionamento nela descrito. O primeiro verso data da primeira semana de amor, cheio de esperança e sentimentos heróicos. Porém, segundo ele, era como se a música tivesse vida e vontades próprias e, aguardando a inevitável “experiência traumática”, se recusasse a ser completada até a concretização da catástrofe.

“Love songs that attach themselves to actual experience, that are a poeticising of real events, have a beauty unto themselves. They stay alive in the same way memories do and, being alive, they grow up and undergo changes and develop. […] The songs that I have written that deal with past relationships have become the relationships themselves, heroically mutating with time and mythologising the ordinary events of my life, lifting them from the temporal plane and blasting them way into the stars. As the relationship itself collapses, whimpering with exhaustion, the song breaks free of it and beats its wings heavenward.”

Far from me

O menino deixou-me

um livro (nunca li),

um bilhete (tantas vezes reli),

uma falta (confusa na anomalia de sua recorrência),

o silêncio de outros tantos parênteses, guardião das palavras que não teriam como e nem por quê ecoarem no que resta dos anos que ainda não acabaram.

E você continua tão longe de mim.