Camila Marques
Mar 8, 2018 · 3 min read

Faz tempo que estou querendo escrever sobre algumas mudanças que aconteceram comigo no ano passado e aqui está. Queria falar um pouco em como cachorro, terapia e um relacionamento me ajudaram a desenterrar um pouquinho da mulher que sou e a apreciar uma mulher importantíssima na minha vida, que é a minha mãe.

Minha mãe é uma mulher incrível. Teve uma vida muito difícil e superou obstáculos que eu nem saberia por onde começar a lidar. Ao mesmo tempo, isso fez com que ela se tornasse muito solitária, dura e talvez até um pouco amarga. Nosso relacionamento sempre foi difícil: eu era uma criança sensível demais, carente, emocional . Uma presa fácil pro mundo e acho que minha mãe via isso e se desesperava. Eu, por outro lado, me chateava porque não entendia nem conseguia alcançar as exigências de ser rocha.

Enfim, eu fiz o que pude e ela também. Nos afastamos por anos. Eu sobrevivi (e bem). Ano passado, encasquetei que queria adotar um cachorro. Me sentia vazia, sozinha, pesada, cansada, moída. Peguei um bebê peludo rejeitado pelo mundo.

A primeira coisa que ela me exigiu foi carinho. O toque, abraço, companhia, que eu nem tinha ideia de como dar. Como uma criança que não foi abraçada, uma adolescente tímida e excluída, uma adulta durona, nunca soube da importância do toque, da pele, e havia me afastado cada vez mais do que existe de sensorial no amor.

A segunda coisa que ela me trouxe foi medo. O medo apavorante, paralisador, de falhar com aquela vida que agora era minha responsabilidade. Acho que não conseguirei expressar exatamente como é, porém consiste em estar acordada preocupada em melhorar a vida de outro ser e chorar à noite por medo de não conseguir. E foi nesse momento que entendi todas as atitudes da minha mãe. Se o medo de perder um bichinho estava fazendo aquilo comigo, imagina o medo que ela deve ter sentido. Um filho no momento em que você achava que tinha passado por tudo que a vida podia exigir de alguém. No momento em que você finalmente achou que podia relaxar, chega, novamente, aquela que é a maior responsabilidade que alguém poderia ter.

Hoje somos mulheres diferentes, eu e a minha mãe. Eu agradeço e aprecio a couraça que ela me deu, e hoje estou reaprendendo a ser mole, macia, chorar, pedir colo, ajuda, abraço, que sempre fez parte da minha essência e acabei esquecendo. Sem largar a armadura que ela me deu. As duas coisas fazem parte de mim.

Minha mãe hoje é milhares de vezes mais doce e feliz do que quando eu nasci. O amor e companheirismo do meu pai substituiu a noção torta que ela tinha de família e, hoje, ela até diz que o mais importante é ter alguém do seu lado. Acho que minha sensibilidade ajudou um pouco também.

Mas o que eu queria dizer era que, descobrir essas coisas sobre mim, sobre ela, me fez olhar com mais caridade, amor e paciência pra nós duas. E isso, sistematizado na terapia, foi fundamental pra ajudar no controle da minha depressão, que me arrasta pro fundo do poço há anos. Hoje sinto mais livre pra requerer o que eu preciso, a errar, a me perdoar e a começar de novo. E, às vezes, até ansiosa pra todas as outras coisas que vou descobrir sobre mim e sobre o mundo.

    Camila Marques

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    Um minuto de silêncio pelas árvores que morreram por causa desse papel de trouxa que você faz.

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