Porque eu varri meu aniversário pra baixo do tapete
muitas felicidades, muitos anos de vida
Chegou mais um 21 de agosto. E, com ele, as tradicionais perguntas: "e aí, onde vai ser a festa?" Vai fazer o quê?" "Onde vamos comemorar?". Bem amigos, pela primeira vez no alto da minha pequena e mísera existência, decidi que não teria festa.
Aniversário é uma coisa muito engraçada mesmo. Você ganha parabéns, felicidades, e um monte de outros desejos. Mas o que foi mesmo que você fez? Nasceu e sobreviveu a mais um ano. Que glória.

Parabéns mesmo deviam te dar ao final de cada segunda-feira. Isso sim é atestado de sobrevivência. Quer dia mais impossível de sobreviver, bater meta, ser social com as pessoas no trabalho, ir pra academia, encarar uma salada, curtir a foto do ex crush, dar uma olhada na rede social da concorrência, que as segundas-feiras? Parabéns pra nós que sobrevivemos.
Pois bem. Esse ano meu aniversário caiu numa segunda. Mais um motivo para eu não ter motivo para comemorar.
Porém, à medida que os enviados do tio Zuckemberg chegavam com suas mensagens de felicidades e afins, mais eu me questionava: "por que diaxos essa Camila que todos felicitam, a bem humorada, a corredora, a alegre, a enérgica, a veggie, a feliz, está colocando seu aniversário em baixo do tapete?" Eis que a resposta veio como um tapa na cara: essa Camila que recebia os parabéns no face, no whats, nas mensagens, no cacete, não era a Camila que estava de aniversário.

A verdade é que quem estava comemorando (?) não era uma pessoa "sempre alegre e divertida, sempre alto astral e cheia de energia". Mas uma pessoa que tem medo, timidez, dor e, na grande maioria do tempo, não sabe o que falar. E que, tchanan, nunca antes na história desse planeta falou abertamente sobre esses temas.
Sim, eu corro, faço exercícios, falo e posto sobre isso. Mas tanta atividade física na verdade serve para descontar uma ansiedade que me consome, que me impede de ficar um dia sequer sem exercício. Claro que eu gosto de treinar. E gostaria muito de falar mais sobre, de trocar ideias, de me aprofundar. Só que meu medo de parecer chata e monótona, minha cobrança, minha eterna certeza de que nunca está bom o suficiente, de que não sou forte/veloz/capaz suficiente, fazem com que o exercício seja um escape e até mesmo uma obrigação. Não acho que faço o suficiente. Acho que os outros são melhores que eu. E que sempre estou devendo. Sim, eu treino, mas o prazer ainda não chegou pra mim.
E eu tenho medos. Muitos. Medo de falar sobre sentimentos. Medo de mostrar quem eu sou. Medo de ligar pra um amigo e ele não atender, ou não retornar. Medo de convidar alguém pra sair e ele não aceitar, medo de falar o que sinto e ser zoada. Medo de ser rejeitada. Medo de me olhar no espelho — que com o passar do tempo, fica cada vez mais longe. E então prefiro fazer piada, e ser eternamente alegre.
Eu como. Muito. Mas ninguém vê. Nem pode. Tenho vergonha. Tenho vergonha dos doces, dos chocolates, de não ter limites, de repetir o prato. Tenho vergonha de não ser perfeita.
E esses medos, vergonhas, sentimentos me fizeram hoje uma pessoa diferente. Que toca o barco, que canta pro tempo passar, mas que realmente, não dá a mínima para onde o vento leva.
Quanto ao aniversário. Ainda bem que passou. Um dia como outro qualquer. Quem sabe ano que vem seja outra história.
