De perdões a aeroportos

Em primeiro lugar: me desculpe. Não, não é porque eu sempre peço desculpa por tudo. É porque eu me acostumei com pessoas erradas, e você não é nada disso. Nos dias ruins você paga o preço do meu passado, mas eu sei que a conta não é sua. Me desculpe por ter atravessado o caminho sem olhar para os lados e muito menos para trás. Me desculpe por atravessar justamente fora da sua faixa de segurança.

Você já deve ter entendido que eu me acostumei a escolher tudo errado, desde a cor do tênis até o cardápio do jantar. Eu me acostumei a também não ser a escolha de ninguém. Então, quando você chegou assim, ainda que de um jeito calmo, mas fazendo questão de chegar, mesmo não podendo, mas chegando, eu me assustei de verdade. E me assusto todas as vezes ainda, confesso. Meu medo não era apenas você chegar: era descobrir que você realmente queria ficar. Eu nunca li o livro até essa página.

Descobri que eu não sei o que fazer com essa sua vontade de fazer dar certo e que me fez sentir de novo como se eu fosse uma criança indefesa de cinco anos. Mas colo, dessa vez, não resolve. Dormir também não. Não é coisa que se remenda ou passa pomada; é cicatriz que a gente nunca sabe se fechou por completo ou não.

Você é uma coisa dessas bonitas que sai andando pelo mundo como se fosse muito comum de se encontrar. Eu sou as coisas comuns. E não sei bem como as nossas andanças se trombaram até agora, mas eu te vi andando lá de longe… E você nem parecia que sabia tanto assim onde pisar. Existe um monte de gente por aí fingindo que sabe amar. Eu não vou te esconder: nunca soube. Acho, na verdade, que a gente nunca vai saber.

Queria te dizer que o meu sonho de vida não era ser essa areia movediça toda. Não quero te puxar para o meu submundo, mas também não posso me esconder aqui embaixo por muito tempo. Quando você me olha, eu sinto que me vê de verdade e ignora por completo a minha implicância com quem me olha fundo nos olhos por mais de cinco segundos.

Eu te libero pra fugir. Ou te seguro, se você quiser mesmo ficar. E talvez você tenha que me ensinar mais sobre essa coisa de querer ficar — é que eu nunca pisei em solo seguro. Torço pra que você continue sem descobrir que eu sequer valho esses esforços todos, mas que represento bem o papel.

Tem um aeroporto com o meu nome, você me contou esses dias.

De todas as chegadas, já te peço perdão pela minha partida, mas não se preocupe: todos os aeroportos são assim… As pistas vão, mas também vem.