Queria ser um texto

A vida, às vezes, só precisava ser mais “editável”

Eu não sei quando isso começou. Não sei se foi quando aprendi a fazer isso pela primeira vez, se foi quando alguém me motivou a fazer isso de novo ou se foi quando tirei o meu primeiro 10 por causa disso. Escrever, pra mim, é meio que natural. Se antes eu gostava de deslizar a caneta no papel, hoje eu gosto de ouvir os meus dedos batendo no teclado.

Mas não tem um motivo. Pelo menos não tinha até o momento em que uma colega perguntou: “o que você faz para escrever?”. Eu tentei entender a pergunta. Não foi a primeira vez que ela foi feita a mim, mas dessa eu fiquei tentando, de verdade, buscar a resposta. Pensei nas aulas de redação da escola, nos livros que li na adolescência, nos vários tumblrs cheios de dramas adolescentes que eu lia, nas reportagens que leio hoje… Mesmo assim, não tinha um porquê.

Eu escrevo porque escrevo. Mas, cá entre nós, isso não é motivo nem pra quem escreve. Se dar ao luxo de escrever merece uma justificativa — demanda tempo, dedicação, pensamento, organização… Não é dos tipos mais leves de hobby. Foi aí que, nessa montanha russa de opções e possíveis respostas, eu percebi o motivo para que eu escreva.

Não é como se fosse uma necessidade. Mas é quase isso. Escrever me liberta. É uma sensação bem parecida com aquela que eu senti quando andei de barco pelo Rio Tejo, em Porto, para conhecer as pontes da pequena cidade portuguesa. Lá, durante o passeio, eu escorei meu corpo no barco, apoiei meu queixo em minhas mãos e fechei os olhos. Senti o vento, ouvi os pássaros, cheirei o leve aroma do mar. Foi libertador. Mas pra sentir tudo isso, não preciso estar lá, em Porto novamente. Posso estar aqui. Posso estar aqui agora.

O processo de libertação, no entanto, tem um motivo aprisionado: eu queria que eu fosse um texto. Talvez, no sentido figurado, eu seja um texto de autoria dos meus pais — ou, quem sabe, uma canção e por que não?! Mas eu queria ser o meu próprio texto. Não… Não é porque eu sei escrever. É porque durante o processo de escrita, eu me deixo percorrer cada linha, cada sílaba, cada união de letra que formará uma palavra. Se não gosto, apago, reescrevo, começo de novo. Se gosto, continuo, morro de amores, sinto orgulho… Mas se eu não quero que ele seja publicado, eu apago.

Entende como, de certa forma, isso liberta? Entende como, de certa forma, a vida seria mais fácil se fosse um texto? Apagar, escrever, resumir, retomar, pausar… Não é como se fosse um filme, mas um texto, desses que a gente tem liberdade para deixar “amadurecendo” e voltar a mexer meses depois sem ter perdido uma palavra sequer.

Na vida, nada é assim. Não tem essa de apagar e simplesmente recomeçar. A gente tenta, mas… Não tem essa de encarar, não gostar, e deletar. Na vida, o texto parece ser entalhado numa placa de ferro: não sai fácil — e se sai, deixa marcas.

Aí pensando nisso tudo, eu entendi porque escrever é um fator de sobrevivência pra mim. O texto deixa de ser um instrumento de comunicação para ser desejo — “tão bom seria se a vida fosse assim”. Mas não é. Não importa se a caneta é azul, vermelha, rosa ou se eu uso lápis… Também não importa se é papel, iPad, computador ou celular… Quando se escreve a história de uma vida, os instrumentos e plataformas não são nada. Ao se escrever a história de uma vida, o que importa mesmo é saber que o script, embora esteja nas nossas mãos, não depende só da nossa perspectiva. E quer saber? Que sorte a nossa! Afinal, que graça teria um texto se ele dependesse só do seu autor? ;) Bom saber que a produção, no fim de tudo, é coletiva.

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