As brincadeiras de rua ainda existem

E as crianças têm muito o que nos ensinar sobre a convivência nas cidades

Fosse em Brasília Teimosa, nas palafitas do Pina ou mesmo no Bom Jesus, comunidade que havia sido recém realocada para as margens de um canal em Boa Viagem, lá estavam elas. No Recife, cidade grande, ainda vivem correndo descalças ou com chinelos de dedo, falando alto e dando risada durante as tardes. Não tivessem brinquedo pronto, inventavam. Era balanço feito de papelão, pescaria na beira do mar, saltos do píer onde se atracam as embarcações.

As crianças ainda estão pelas ruas, esbanjando leveza, criatividade e amor pelo coletivo. Se aglomeram e se misturam com facilidade, mesmo quando não se conhecem, e logo arrumam um jeitinho de se divertirem juntas. Reside nelas a essência mais pura da convivência em harmonia. Não importa cor, classe social, gênero, tipo físico: todo mundo brinca.

Quero que esse espaço seja assim. Um monte de gente estranha se embrenhando, se completando, se conhecendo. Esse projeto nasce de um sonho por diversidade e inclusão que eu alimento desde que comecei minha vida como jornalista. Muito prazer, meu nome é Camila Almeida, nasci em Salvador, me criei no Recife e hoje vivo em São Paulo. Escolhi ser repórter para poder servir a muitas vozes, de todas as naturezas, e estou aqui mais para ouvir do que para falar.

Desde que me mudei para essa cidade gigantesca, onde vivem 12 milhões de pessoas, tenho me sentido afônica. Não porque não tenho trabalhado — acho que nunca escrevi tanto na minha vida. Mas porque tenho falhado com a missão com que me comprometi. Não tenho conversado o bastante, não tenho me importado com o outro, não tenho ouvido tantas pessoas quanto eu deveria. Cheguei por aqui meio envergonhada, meio perdida, e sinto que até agora não descobri como entrar na roda.

Esse projeto é uma tentativa de me amigar mais com São Paulo. De entrar em contato com os infinitos tipos de viventes que se aglomeram por aqui. De ouvir as histórias malucas dessa gente que nasceu paulistana e cria os filhos nessa loucura de megalópole. Espero que a gente se divirta. Brinquemos.

Recife, 2012. Por Camila Almeida.
Like what you read? Give Camila Almeida a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.