Amor livro

Olá, barbudinho descabelado sorridente da camisa florida. Estou escrevendo pois ontem tive a sensação de que desperdiçamos uma oportunidade épica.
Seria o melhor começo de romance de todos os tempos. Eu consigo imaginar a reação dos meus amigos quando eu contasse que te conheci em uma livraria.
“Nossa, é a sua cara conhecer o amor da sua vida em uma livraria”.
E eu responderia “sim, é a minha cara conhecer o amor da minha vida em uma livraria” – e a gente se abraçaria. E eu pensaria na sorte que tive de encontrar um barbudinho sorridente de camisa florida no meio de tantas histórias possíveis.
Se você chegasse cinco minutos antes, eu estaria folheando o Guia do Mochileiro das Galáxias. Tenho certeza que você leu e faria alguma piada espirituosa, e eu me apaixonaria na mesma hora.
Ou duas prateleiras depois, e eu estaria enlouquecida com a edição especial em espanhol de Cem Anos de Solidão. E eu falaria algo sobre a capa ser parecida com a sua camisa. E a gente daria muita risada disso. E quem sabe comemoraríamos um ano juntos viajando para a Colômbia em homenagem ao Gabo. E esse livro teria um lugar especial na nossa biblioteca.
Por sinal, seria uma biblioteca incrível, com um acervo de fazer inveja. Acho que seria legal se ela fosse perto do quintal, com luz natural e decorada com plantas e flores, no estilo da sua camisa e da edição especial de cem anos de solidão. A gente só precisaria ter cuidado para os cachorros não destruírem nada por lá. Poderíamos adotar quatro cachorros, o que acha?
Acontece que você chegou bem na hora em que eu estava olhando para um caderno. Cheio de folhas em branco. Difícil começar uma história assim, do nada. Por um momento, eu desejei te encontrar em um aplicativo – seria mais fácil, mas logo mudei de ideia. Acho que prefiro um amor analógico mesmo. Desses que a gente olha no olho e sorri, como você fez. Ando cansada de gente de cabeça baixa com olhar fixo em uma tela.
Com o perdão do trocadilho ruim, te deixo livre para a gente se encontrar novamente entre livros. Ou quem sabe em algum outro lugar, como por exemplo, um desses cafés decorados com plantas – que parecem a sua camisa e é a sua cara frequentar! Ou na pior pior das hipóteses pode ser até em um desses aplicativos. Ou numa dessas na Colômbia. Afinal, o que é para acontecer está escrito.
