Texto que escrevi para uma atividade do professor Julio Roberto Groppa Aquino. A partir do filme “Depois da vida” (Hirokazu Kore-eda, 1998) era necessário escolher um único momento para guardar na memória e carregar consigo após a morte.
Era um dia de semana e, não recordo o motivo, havia ido visitar minha mãe em Jandira, na Grande São Paulo. Voltava para casa pela rodovia Castelo Branco em horário de pico; esperava trânsito, mas não naquela altura da via. Todos os carros diminuíram bruscamente a velocidade e, quase ao mesmo tempo, o Waze informou: acidente a frente.
Fiquei aflita, mas em outras ocasiões havia sido apenas uma batida leve, um encontro inconveniente com o guard rail. Não.
Ao passar pelo fatídico ponto, havia um cachorro atropelado. De pequeno porte, o corpo do animal estava retorcido: sua dianteira girada para um lado, sua traseira, para outro, patas indicavam todas as direções - pareciam multiplicadas, pois apontavam para todos os sentidos. Sua expressão, porém, era de serenidade. Tranquilidade inesperada, leve, como quem dormiu e não se percebeu morrer. A ausência de sangue auxiliava o conflito de informações.
Chorei desesperadamente dentro do carro. Minhas lágrimas ofuscavam a visão e achei que causaria outro acidente. A distância e a lentidão permitiram que aquele momento se prolongasse durante os próximos cem minutos.
Ainda que estivesse durante uma crise severa de depressão, o sentimento não era de tristeza, mas de assombro. Eu não compreendia e ainda não compreendo. A morte violenta, bruta e repentina era o que eu desejava e também aquilo que temia. No entanto, não era a morte ou sua forma que surpreendia, mas o enigma daquele contraste.
Essa é a imagem que eu guardaria dos meus dias. A incompreensão da vida, o mistério, a impenetrabilidade, a incapacidade de alcançar o sentido de tudo. A catarse, ainda que importante, só existe em oposição ao incógnito. Não há divino ou transcendência que explique a cena vivida, não há racionalidade que dê conta daquele olhar plácido.
O quero para mim é um cachorro morto.
