Avenida Princesa Isabel, nº 160: de fora para dentro

Oficinas e atividades socioculturais para crianças tentam mudar a percepção dos vizinhos a respeito dos moradores do prédio mais falado do bairro

O professor mal chegou, mas na porta da sala já se formou uma fila de alunos prontos para a aula. Todas as terças e quintas, logo depois de saírem do colégio, eles já ficam a postos, esperando pelo próximo round. Claro que, como em toda turma, também tem aqueles que chegam atrasados e, sorrateiramente, se unem ao grupo, como se já estivessem por lá à espera do professor. Com uma habilidade invejável e uma disciplina que demorou um pouquinho para ser conquistada, os alunos rapidamente terminam de arrumar os tatames, amarram a faixa no quimono e deixam os sapatos, já surrados, quase que perfeitamente alinhados ao redor do que, em breve, passa a ser um palco de uma luta de de jiu-jitsu.

Eles ainda são pequenos, têm entre 8 e 14 anos. Mas todos já deram motivos mais do que suficientes para que o professor Santiago Barth, 40 anos, encha o peito de orgulho para falar do que deseja para o futuro dos alunos e de como eles o ajudam a transformar a sua vida. É que da mesma forma que o jiu-jitsu está ensinando sempre uma coisa nova para os pequenos, como conhecer seus limites, respeitar o próximo, ter disciplina e concentração, o esporte também já foi a “salvação” para Santiago — como ele mesmo descreve.

Faixa azul no esporte, há cerca de três anos precisou ficar longe dos tatames. Enquanto voltava para sua casa, em Porto Alegre (RS), após uma temporada de veraneio, ele foi surpreendido por uma abordagem da Polícia Rodoviária Federal (PRF) que o encontrou transportando quatro quilos de cocaína.

Depois de quase um ano em regime fechado no presídio central de Porto Alegre, que é considerado um dos piores do país, ele foi novamente surpreendido. Na época, sem advogados, ele recebeu uma visita dos seus amigos do Ratão — academia onde já treinava jiu-jitsu. “Eu estava no pátio e me falaram ‘O meu, tem um advogado te esperando lá no parlatório. Vai lá agora’. Era uma burocracia pra sair até lá, um monte de cadeado e portão. Quando cheguei, eram os guris do jiu-jitsu. Bah, me desandei a chorar, de tanta vergonha”, lembra Santiago. Foram os colegas de luta que advogaram para ele, e foi o jiu-jitsu, intensamente praticado quando ficou em uma comunidade terapêutica, que o ajudou a recomeçar.

Além da dedicação cada vez mais intensa ao esporte, que rendeu a ele a faixa roxa, os encontros mensais com um psiquiatra passaram a fazer parte da vida de Santiago após o período de reclusão. E foi justamente na sala do médico que percebeu como poderia, através do esporte, ajudar outras pessoas em uma situação mais vulnerável. “Agora eu posso dar aula, poderia arranjar um trabalho em uma academia pequena. Mas conversando, ele me questionou ‘por que tu não faz um projeto?’. E eu fiquei pensando naquilo, até que entrei em contato com a Dona Eurides , que é líder comunitária do condomínio, e ela me disse ‘o espaço tá aberto, só não sei se tu vais conseguir”.

Veja abaixo um passo a passo de como acontecem os treinos:

Avenida Princesa Isabel, nº 160: de dentro para fora

Se, de alguma forma, a história já lhe sensibilizou, talvez você fique surpreso(a) em saber que, na maior parte das vezes que se fala sobre o local onde acontecem as aulas ou sobre os próprio familiares dos alunos, as notícias são, majoritariamente, negativas. É que os encontros para lutar jiu-jitsu acontecem no Condomínio Princesa Isabel, onde os alunos moram.

Localizado no bairro Azenha, o conjunto foi construído há 10 anos pela prefeitura para servir como moradia popular aos moradores da antiga Vila Cabo Rocha, no mesmo bairro, popularmente chamada de Vila Zero Hora. O tráfico de drogas, que já se instalava na região, se consolidou também dentro do condomínio. Embora esteja há pouco mais de 500 metros do Palácio da Polícia, hoje o prédio é conhecido como um dos maiores e mais sólidos pontos de tráfico da cidade.

Entre as 200 famílias que vivem no local, há um “grupo de mães” (no qual nem todas têm filhos, mas já se consideram e identificam assim) tentando mudar a forma como os moradores do condomínio são vistos pela população porto alegrense. Sheila Munhoz, 31 anos, que trabalha como confeiteira, foi quem começou a organizar as primeiras atividades do grupo que, mais tarde, passou a ser chamado de Comunidade em Movimento.

Ela lembra que, desde o início, a maior preocupação foi com as crianças. “Elas não tinham nenhum pouco de diversão. A pracinha está estragada, não podem jogar bola no estacionamento porque as pessoas reclamam que pode estragar os carros. E a gente se questionou: como essas crianças vão se divertir e crescer se não têm nada disso?”

Sheila Munhoz mostra como tem se dedicado a organizar as atividades do Comunidade em Movimento

Como em um trabalho de formiguinha, ela e outras cinco moradoras passaram a organizar atividades, como roda de samba e brechós, para levantar fundos e promover reformas nos espaços de convívio públicos do condomínio. Desde então elas já conseguiram colocar a fechadura em uma das entradas do prédio, implementar projetos sociais e, talvez o mais importante, revitalizar o salão de festas. Lá é onde acontecem as principais atividades do Comunidade em Movimento. Quando começaram com o projeto, há pouco menos de um ano, o local era, basicamente, um depósito sujo, sem iluminação e cheio de móveis abandonados por antigos moradores.

Hoje, para dar conta de todas as demandas dos pequenos, que são muito engajados no projeto e estão sempre solicitando mais atividades, elas já estabeleceram uma espécie de cronograma para cada dia da semana. Os cultos religiosos, realizado por moradores evangélicos do condomínio, na segunda-feira, são os responsáveis por abrir a agenda. Logo em seguida, nas terças e quintas, são as aulas de jiu-jitsu que completam o final da tarde das crianças. Na quarta-feira, ainda de uma forma mais tímida, acontecem aulas de box.

Por fim, para fechar a semana, as mães também realizam o Fala Comunidade, no qual os moradores se reúnem para debater sobre os problemas do local e quais as melhorias podem ser feitas. Para atrair ainda mais os condôminos, o grupo também disponibiliza uma urna no pátio central do prédio, onde é possível deixar bilhetes com críticas, demandas ou sugestões.

Essas são algumas das fundadoras do Comunidade em Movimento. Da esquerda para a direita: Sheila Munhoz, Ketlin Castro, Andreza de Paula e Magda Prates

Uma das atividades que Magda Prates, 26 anos, bacharel em direito e membro do Comunidade em Movimento, mais se orgulha de já ter proporcionado às crianças e sente que representa o intuito do grupo foi o encontro com a psicóloga Taramis Sartorio. Nessa atividade as crianças tiveram um espaço para falar sobre o que imaginam para o seu futuro, como lidam com sonhos, bem como questões relativas ao auto conhecimento e adoção de um estilo de vida saudável e seguro.

Para a psicóloga Taramis Sartorio, o imaginário social, formado em função do tráfico, sobre os moradores do condomínio acaba por reforçar as desigualdades e interfere na sociabilidade das crianças, que passam a carregar essa bagagem e marginalização para fora dos muros do condomínio. “O projeto, visa fortalecer a população no aspecto que eles podem sonhar e lutar para conseguir seus sonhos, independente destes estereótipos, exercitando seus poderes de resiliência. O grupo de mães é importante nesse sentido, pois, as mulheres que ali estão são um exemplo direto para as crianças”.

Santiago, que convive com elas há mais de um ano, já percebe que transmitiu muitos valores aos pequenos, desde de coisas simples como dizer ‘obrigado’ e não andar de pés descalços, a casos mais delicados, como o do aluno Chico*. Quando o menino tinha oito anos de idade, seus pais foram presos, em virtude do tráfico de drogas. “Ele ficou praticamente na rua, quem dava comida para ele era o tráfico, ele apanhava todo o dia. Ele é muito traumatizado, então agora ele está batendo nas crianças menores. Ele discute com uns e quando vê já tá batendo. Eu já acabei umas duas ou três aulas por causa dele, pois o meu lema é o seguinte: Jiu-jitsu é luta, não é briga”.

Acabar as aulas por causa do comportamento de um fez com que todos estavam interessados no treino também cuidassem dos outros alunos, apartando possíveis discussões e respeitando os limites de cada um. Apegado emocionalmente e sensibilizado com a história de Chico, Santiago atendeu à demanda do próprio aluno, que hoje tem dez anos, e passou a levá-lo ao psiquiatra. Apesar da personalidade forte do menino, desde então ele já tem se mostrado mais calmo e respeitoso, tanto com os colegas quanto com os professores.

Apesar da faixa etária específica para participar das aulas de jiu-jitsu, tanto as “mães” quanto o professor têm o mesmo objetivo para quando os alunos ficarem maiores: torná-los os mestres das turmas seguintes. Para os alunos, aparentemente o desejo é o mesmo. “Recebi um feedback de um adolescente que o sonho dele era treinar a nova geração de jiu-jitsu na comunidade, e isso é incrível, porque proporciona novas possibilidades de vida para ele e tantos outro”, conta Tamires. No que depender da boa vontade do Comunidade em Movimento, da parceria de pessoas que se preocupam com o próximo e do entusiasmo das crianças, o projeto ainda vai muito longe e deve apontar novos caminhos, que não o envolvimento com o tráfico, aos pequeno.