Todo final de semana as flores precisam ser regadas

Conheça a história de Lucas Leite, uma das borboleta da Avenida Ipiranga*

“Mãe, dei uma saidinha, mas já volto”, era o que dizia o bilhete escrito à mão pelo filho mais novo, Lucas Leite, e deixado sobre o criado-mudo do quarto dos pais. Já era por volta das onze da noite e Nicolau e Katia dormiam. Eles estavam descansando pois, no dia seguinte, receberiam a família para a festa de natal. Todos estavam prontos para a comemoração. Os presentes já tinham sido comprados e enfeitavam a árvore de natal. A ceia já estava pronta para ir à mesa. Era 23 de dezembro de 2003.

O final de ano também representava a melhor parte de estar no colégio: as férias. Não era mais preciso acordar cedo para ir à aula e havia mais tempo livre para programar as idas à recém reformada casa de praia. Lucas estava feliz, ia ingressar no segundo ano do ensino médio. Embora gostasse da escola e tivesse muitos amigos por lá, já estava pronto para aproveitar suas habilidades na área de exatas de forma que pudesse ingressar na faculdade de engenharia. Ele era daqueles alunos que deixava os outros com inveja: mesmo que estudasse pouco para uma prova, ia bem. Entre os colegas, seu cabelo cacheado e volumoso também fazia sucesso, principalmente entre as meninas, que adoravam ficar mexendo e enrolando os cachinhos dele. Para o pai, o cabelo era motivo de brincadeira. “Guri, vai cuidar desse cabelo! Será que não estás com piolho?”, brincava Nicolau.

Companheiros, eles iam e voltavam juntos todos os dias do bairro Cavalhada, onde moravam, para o colégio Maria Imaculada, no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Nicolau é professor de educação física na escola e passou para o filho a adoração pelo esporte. Quando o pai se reunia para jogar futebol com os amigos, Lucas era sempre o caçula entre os coroas. E nem por isso, seu desempenho era inferior. Às vezes, chegava a dar um banho de bola nos mais velhos. Tê-lo na equipe era sinônimo de vitória. O pai acha que o nome tem grande influência nessa habilidade com a bola, já que vários de seus jogadores prediletos também são chamados de Lucas, a exemplo do Lucas Moura (joga pelo Paris Saint-Germain), Lucas Lima (Internacional) ou mesmo o Lucas Silva (Real Madrid).

O futuro do filho como jogador de futebol estava em boas mãos. Mesmo tendo apenas 15 anos de idade, já participava de treinos para ingressar no time de categoria de base do Grêmio, chegou a jogar pelo Mont’serrat e pelo Cerâmica, em Gravataí. E em casa, é claro, ele contava com o melhor técnico, conselheiro e amigo que poderia ter: o pai.

Mas nem tudo era estudo ou trabalho. Os momentos entre os dois também eram muito baseados na brincadeira. Lucas era daquelas pessoas brincalhonas, que sempre deixam todo mundo ao seu redor feliz. Quando o clima do jantar estava meio desanimado, ele é quem tornava o ambiente mais alegre com o seu sorriso no rosto e piadinhas e brincadeiras na ponta da língua. Essa energia toda vinha da paixão pelos doces e, embora fosse o brincalhão da casa, com frequência, também caia nas brincadeiras feitas pelo pai. “Às vezes eu ia no meu quarto e abria uma embalagem qualquer, só para fazer barulho, como se fosse um doce mesmo. Não dava 30 segundos e ele estava lá, achando que era chocolate. Ele vinha correndo! Eu jogava ele na cama e ficávamos brincando, fazendo cócegas um no outro”.

Naquela noite de 23 de dezembro, como em toda as outras em que Lucas esteve presente, o clima era de alegria. As aulas já tinham acabado e, como qualquer outro jovem daquela idade, ele queria comemorar o final de mais um ano letivo. O convite dos amigos mais velhos veio quando os pais já estavam dormindo. Eles sequer poderiam imaginar que acordariam com aquela notícia antes mesmo de ver o bilhete deixado pelo filho. “Nos ligaram, por volta da seis da manhã, e falaram que tinha acontecido um acidente de carro e que o Lucas poderia estar junto. Fomos até o quarto dele e ele não estava lá, então fomos correndo ao Pronto Socorro”.

Acompanhado de alguns vizinhos, o jovem tinha ido para uma festa nas proximidades da Avenida Goethe. Os primeiros amigos a irem embora o convidaram para voltar para casa também, mas a festa estava animada, Lucas decidiu ficar um pouco mais e pegar carona com um amigo mais velho. Os amigos desse motorista também estavam na festa e todos foram embora juntos, em carros diferentes. Por algum motivo que até hoje Nicolau se pergunta “por quê?”, os condutores de cada carro decidiram fazer um pega. Os veículos, em alta velocidade, acabaram se batendo, um ao lado do outro. Porém, o carro em que Lucas estava foi empurrado para a direita, o motorista perdeu o controle do veículo, que capotou e acabou se chocando contra um poste.

Lucas estava sentado no banco de trás do carona e foi quem mais sofreu com o acidente. “As pessoas que estavam ao redor quando aconteceu o acidente me relataram que, mesmo naquela situação, ele estava preocupado em saber como estavam os outros meninos do carro. Ele estava preocupado com os outros, mas mal sabia que o escolhido tinha sido ele. Todos os outros ficaram com ferimentos, mas ele foi o único que faleceu”, diz o pai.

Desde então, as noites de natal nunca foram as mesmas. Sempre que assiste aos jogos de futebol pela televisão, Nicolau, ao mesmo tempo, fica feliz e triste ao imaginar que o filho poderia estar jogando no campo. As partidas de futebol com os amigos, por outro lado, hoje são motivo de dor e não fazem mais parte de sua rotina. E essa dualidade de sentimentos faz parte da vida do pai até hoje.

Em 2003, o dia 24 de dezembro passou a ter um novo significado com a morte de Lucas. Em 2012, mais um simbolismo surgiu para a data: a irmã mais velha de Lucas teve seu segundo filho, dessa vez, um menino batizado de João Lucas. Ao mesmo tempo em que é prazeroso lembrar de como o filho era e de todos os bons momentos que os dois passaram juntos, é dolorido saber que ele não está mais aqui, que não é possível abraçá-lo. Essas feridas ainda não cicatrizadas, doem a todo momento, pois o filho está sempre presente na vida do pai e deixou um pedacinho de si em todos os lugares que pode. Na escola onde estudava e onde Nicolau ainda leciona foi criado o núcleo Lucas Leite, que promove ações de conscientização no trânsito.

Há cerca de dois meses, Nicolau teve seu terceiro filho, o Lucca — fruto de um novo casamento. Apesar das semelhanças, o pai diz que ninguém substituirá a ausência de Lucas. Como forma de manter um laço e continuar cuidando do primeiro filho, todos os finais de semana ele visita o Cemitério Ecumênico João XXIII, onde o corpo está. O ritual é o mesmo há quase 13 anos: escutar Vamos Fugir, da Skank, regar as flores que ficam ao redor do túmulo e fazer orações. A música era uma das favoritas de Lucas, utilizada, inclusive, como toque do seu celular. Hoje, para o pai, essa “é a nossa música, minha e do Lucas”.

*Texto escrito para o projeto Borboletas, que irá mapear e contar a história das borboletas que lembram das vítimas de acidente de trânsito em Porto Alegre. A atividade fez parte da disciplina de Jornalismo Digital, no quinto semestre do curso de jornalismo.