Texto do adeus (ou a teoria do hambúrguer)

Hoje eu apaguei nossas mensagens, troquei o seu toque no meu celular, não vi se estava online nem li seu signo. Hoje eu decidi tentar te esquecer.

Até ontem eu não queria. Aliás, hoje mais cedo eu não queria. Talvez você ainda tenha feito parte dos meus sonhos esta noite, eu não me lembro.

Não sobrou nenhum áudio, nenhum convite, nenhum bom dia. Apenas uma foto – esta ainda não tive coragem de deletar. Resta um eco do seu último boa noite. Mesmo com sua resposta seca, automática e inútil quase me arrependo de não ter mais um registro da sua voz.

Com você resgatei uma parte incrível de mim e pude sentir novamente como é bom estar viva. Talvez o que eu pense ser amor seja apenas um enorme desejo de retribuição por você ter me trazido de volta. E esta angústia toda seja somente medo de que sem você eu me perca de novo.

Inevitável para qualquer ser humano questionar: mas por que diabos esta criatura não sente a mesma coisa por mim? Eu não fui importante também na sua vida?

E eis então que chegamos à bela teoria do “Hambúrguer no freezer”. Você já foi, sua amiga e o nosso colega de trabalho também já foram. Eu estou escolhendo – tentando – deixar de ser.

Ouvi essa análise pela primeira vez da boca de uma amiga de infância, há no mínimo uns dez anos.

Analisemos como a teoria se aplica.

Um ser se envolve com outro ser. Convivem, se falam frequentemente, têm uma certa intimidade, podendo até se relacionar com os amigos um do outro. Sem cobranças. Sem família. Sem planos. Bom, até o presente momento esta cena me parece extraída de um sonho, certo? Errado.

O bendito animal (ir)racional nasceu, cresceu ou desenvolveu características e comportamentos que praticamente o empurram para um local bem diferente deste mundo ideal. Não sei se posso dizer que a maioria, mas uma grande parte de nós é assim: preza por sua liberdade, individualidade, mas, no fim do dia, quer alguém pra dividir a vida, sonhos, objetivos…

E diz a lenda que todo mundo vai conseguir. Tampa da panela, metade da laranja, alma gêmea. E no afã de achar essa coisa preciosa a gente se aventura. Se diverte. Conhece gente boa, desgosta de tantas outras e assim vai. Tem aqueles que já acharam. Tem quem já achou que achou. Tem quem não queira achar. Tem de tudo.

E aí chegamos aos detalhes da teoria. A hipótese é que, no meio desta busca, todo mortal foi, é ou será o hambúrguer no freezer de alguém. Ouço a voz daquela amiga explicando, sem poupar a ironia seguida de gargalhadas:

Naquela noite fria, abraçada com a solidão, pensando arduamente em como melhorar o cenário, eis que você se lembra! Há um hambúrguer escondido ali no fundo do freezer. Não é exatamente aquilo que me satisfaria hoje, mas com certeza vai ajudar.

Não vou menosprezar a sua inteligência traçando o paralelo desta fala com nossas vidas amorosas porque eu não sou o tipo de gente que explica piada.

De maneira que em nossa trajetória, em algum momento, já encenamos cada um destes dois papéis. E ao que me parece agora eu sou o seu hambúrguer. Chateia porque achei que estivesse mais pra T-bone, mas não.

Eu sei, o mundo mudou e a forma como as pessoas se relacionam vai continuar mudando. Não conseguimos compreender algumas coisas simplesmente porque o comportamento das pessoas realmente não prevê mais regras. A demanda e a oferta podem sim estar desbalanceadas. O ser humano está mais individualista. Enfim, isso é tema para uma tese de mestrado e não é isso que queremos agora.

Fato é que, mesmo sabendo de tudo isso, a galera se envolve. As pessoas criam ilusões e, como diria o poeta: “A expectativa é a mãe da merda”. Cruel verdade. E não é necessariamente culpa do outro; todos nós somos bem criativos quando o assunto é relacionamento. Mas então eu pergunto: dá pra viver sem sonhar? Não é melhor correr o risco de ser um passatempo do que desistir de achar “A” pessoa?

Eu honestamente achava que sim. Não sei mais. Nem sei se isso é mesmo o tipo de coisa que se acha. Ou se é “destino, miragem, milagre, será mistério”.

E você já deve estar pensando: pior que ser hambúrguer é não saber qual papel você está vivendo em determinada história. E acho que a maior decepção mora aí mesmo. Ninguém quer estar com alguém que não gosta da gente. Mas quando a gente se entrega fica muito complicado discernir o que é ou não real.

O que eu sei é o que eu sinto, tentarei não fazer mais conjecturas. Seguirei tendo fé na vida, em dias melhores, aprendendo com as adversidades e me divertindo muito, principalmente em minha companhia.

Talvez esbarre novamente com alguém que estará num momento diferente do meu ou, claro, que não se sinta atraído por mim. Ou ainda: encontrarei alguém tão livre quanto eu e teremos de fato uma relação dos sonhos. De toda forma, com as bênçãos de Deus, espero que o timing esteja ao meu lado quando eu voltar a me apaixonar.

Mas hoje (que tal agora?) eu só queria tirar do meu sistema tudo o que vivemos juntos e que eu realmente acreditei que fosse verdade.

Obs.: uma parte deste texto foi escrita ao som de “Say goodbye” de Dave Matthews Band. Se tiver curiosidade ouça e, obviamente, preste atenção à letra. É minha música favorita no mundo. Mas além disso você será capaz de perceber a anedota que Deus quis neste momento me oferecer.