Bala na língua

Mãe, diz pras suas amigas que eu sou um rapaz crescido. Eu já alcanço a pia, sei escovar os dentes sozinho. Posso me ver no espelho, mesmo que só o topo da testa, e isso significa que eu já sei o que pode e o que não pode fazer.

Olha só, já vejo a ponta do nariz, (ou seria a ponte?) agora eu sei o PORQUÊ a gente pode ou não fazer as coisas.
Já consigo ver o meu queixo, quadradinho como o do papai, e converso comigo mesmo, apesar de nunca ser uma conversa muito produtiva, eu me escuto muito bem.
Meus ombros já acompanham o rosto, emoldurados pela borda listrada do vidro. Cada vez mais parecido com papai, olhos da mamãe, inteligência dos dois. Olha, mãe! Já sou um rapaz crescido, já sei com o que eu quero trabalhar.
Agora eu preciso me abaixar um pouquinho pra me ver, mas não faz mal. Tenho muitas dúvidas. Crescer é isso? Aprender um pouquinho todo dia e ainda assim não saber nada? Sou um rapaz crescido?
Olha! Meu rosto não está mais envolto por listras. Agora eu me vejo em um vidro de bordas limpas, um espelho que eu mesmo escolhi. Não tem mais ninguém pra me mandar dormir logo. Ninguém pra me mandar lavar a louça. Ninguém pra fazer comida também.
Achei alguém que me manda dormir. Que manda eu me alimentar direito. Que me manda colocar uma blusa e levar um guarda-chuva. Ela é ótima! Ela sabe que eu sou um rapaz crescido mas cuida de mim mesmo assim.
Sou tão parecido com meu pai… Tão parecido que virei um também. Meu nome mudou. Me chamo “Papai” agora. Já começo a sentir dor nas costas e parece que o cavalinho da minha princesa não é mais aquele corcel de antigamente.
Mamãe e Papai não estão mais comigo, mas saibam que a sua netinha virou engenheira e conserta máquinas maiores que a nossa antiga casa.
Mãe, fala pras suas amigas que eu sou tudo o que queria ser. Que eu sou tudo o que você queria que eu fosse. Que eu sei atravessar a rua sozinho e eu não mastigo mais a bala.
Pode espalhar que eu já sou crescido e aprendi que não morder a bala faz durar mais, ainda que uma hora acabe.

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