Anitta não é feminista

Print do clipe musical “Vai Malandra” de Anitta

Há um tempo atrás a Anitta lançou o sucesso global “Vai Malandra”. A música foi considerada a confirmação final de que ela era a representação da mulher brasileira poderosa ganhando o mundo, divulgando a cultura brasileira da periferia e provando que mulheres em posição de poder podem dar certo. Vamos analisar esse fenômeno de perto.

Antes de tudo, vale notar que a música em si não é o fenômeno. O fenômeno envolve o clipe musical, a imagem nacional e internacional da Anitta e da estratégia de lançamento na qual a música estava inserida naquele momento. Anitta se tornava uma empreendedora de sucesso ao sair da pobreza e ganhar o coração do Brasil com suas músicas e seus clipes musicais. O projeto “CheckMate tinha o objetivo de lançá-la internacionalmente, com quatro clipes que misturavam a cultura nacional com o Pop americano. A musicalidade em si variava de acordo com o single do projeto, incorporando Pop, Bossa Nova, Regeton e, na música em questão, Funk.

E o funk de “Vai Malandra” é especificamente o funk que se popularizou cerca de uma década para cá, com o ritmo “tum tá, tá tá” no fundo, acrescido de uma melodia chiclete por cima composta de notas simples, sem acompanhamento na maior parte da música. A canção cantada é geralmente pequena e composta de frases de efeito. Em “Vai Malandra”, essas frases visavam reforçar o papel de poder de Anitta, a exemplo de “Não vou mais parar, vai ter que aguentar” e o próprio “Vai malandra”. O “Vai malandra” também reforçando a ideia de que ela é uma mulher de periferia (daí o termo “malandra”, popularmente usado para descrever tais mulheres) que está progredindo na vida.

É claro que isso é bom para a Anitta, sem dúvidas. Acho ótimo que ela esteja ganhando dinheiro e alcançando o sucesso, enquanto indivíduo. Aliás, ouvi críticos dizendo que a sua música catapultou a visibilidade de músicos brasileiros de periferia, o que me parece algo positivo, a pesar de que não tenho conhecimento suficiente do cenário musical periférico brasileiro atual para julgar. Vou tentar focar este texto em o que a Anitta fez pelas mulheres. É importante rever a narrativa da “mulher brasileira poderosa ganhando o mundo” que existe ao seu redor. Parece-me uma tentativa de ela dizer-se feminista, ou, ao menos, isso é o que fãs parecem defender de sua pessoa, como se ela estivesse representando o potencial das mulheres e gerando esperança a estas através de sua arte. Não acho que esse seja o caso.

A representatividade feminina que Anitta cria em “Vai Malandra” é problemática. O motivo é enormemente simples: ela se faz de objeto sexual. O clipe da música abre com uma imagem de sua bunda, mostrando o que ela de fato representa para o mundo. Não me interessa que sua bunda tenha celulite, como muitos argumentam, como se o fato de ela ter celulite diminuísse o quanto ela está se sexualizando no clipe. É algo do tipo “tudo bem você ter celulite, você ainda pode ser um objeto sexual nesse mundo”. Que coisa boa! Isso é tudo o que toda mulher pode querer da vida, não é mesmo?

Mostrar celulite não apaga a raiz do problema das mulheres. O fato é que mulheres precisam ser bonitas, porque, se não forem, não são consideradas válidas ou importantes o bastante. O fato é que ser bonita é tudo o que as mulheres podem ser. Não quero uma referência da cultura pop que me diga que eu ainda posso ser bonita mesmo tendo celulite, quero uma referência que me diga que não preciso ser bonita. O clipe parece ter a vontade de mostrar a diversidade das mulheres de periferia brasileira e como todas elas são bonitas. Mas e daí se não forem?

É claro que, neste contexto, “ser bonita” está ligada a “ser um objeto sexual”. Isso se torna evidente quando o clipe mostra uma mulher fora do padrão de beleza, por ser gorda, de top, para mostrar o corpo. A intenção é mostrar o tanto que a moça é sexy do seu jeito particular. E quase todas as moças do clipe se vestiam com roupas demasiadamente curtas e eram mostradas fazendo rituais de beleza típicos de favelas, como pegar sol na lage e buscar ficar com marquinhas de sol no corpo. A exceção é uma mulher mais velha com um vestido mais “normal” que aparece para dar uma quebrada nesse padrão.

Um argumento que frequentemente ouço quando trago essa questão é que a Anitta está tentando divulgar a cultura das favelas. Ora, mas que ótimo ela mostrar como as mulheres de favela se sexualizam, não é mesmo? Isso daria um bom documentário discutindo a feminilidade nas favelas (e, aqui, uso a palavra “feminilidade” de forma pejorativa), uma pena que isto estava sendo celebrado no clipe.

É curioso esse fenômeno de separação entre as que se chamam de feministas na mídia atual (nem todas, notem, há ainda algumas feministas respeitáveis) e são brancas/ricas em contraposição às que são pobres/negras. O feminismo, quando diz respeito a mulheres pobres ou negras, muda suas regras. Não digo isso no bom sentido, como o fato de considerar que mulheres negras sofrem uma dupla opressão — por serem mulheres e negras — , mas num sentido de que a opressão que as mulheres brancas sofrem parece ser justificada quando a mulher é negra. A mulher branca é pressionada a ser bonita, mas a mulher negra não é esperada de ser bonita, logo, tudo bem se ela tiver que tomar medidas extremas para se mostrar atraente, tal qual se sexualizar ao ponto de quase não usar roupas e gastar horas em tratamentos de beleza. Engraçado que não vejo meninas de periferia despreocupadas com a aparência pelo fato de serem negras, pelo contrário, vejo elas com bastante maquiagem, cabelo arrumado e roupas provocantes. E não acho que homens negros se sexualizem da mesma forma que as mulheres negras — fica a reflexão do porquê.

Não. O machismo, que vê a mulher como um ser subjugado aos seus atributos corporais e à sua capacidade reprodutiva, denigre tanto mulheres negras quanto brancas. Periféricas e ricas. Ainda assim, não tenho a resposta para este problema. Afinal, não acho que a Anitta teria alcançado o sucesso que fez sem se sexualizar; logo, como garantir a dignidade de mulheres pobres sem fazê-las de objeto sexual? Há de se combater o problema da pobreza e da invisibilidade negra de alguma forma. De todo modo, segregar o feminismo dando dignidade às ricas e relevando o problema das pobres não é a solução.

A representatividade de Anitta traz ideias similares a estas que segregam as mulheres dentro do movimento feministas. O discurso que ouço defendendo “ Vai Malandra” é o de que, como as mulheres periféricas nunca puderam ser vistas como bonitas, a Anitta as trouxe esta chance. Para mim, isso soa muito como a representatividade feminina dos anos 1990 e 2000 tal qual no filme “As Panteras” (2000) ou algo do tipo, na qual as mulheres “poderosas” eram aquelas de collant e roupa justa. Não é nada de inovador. É, na realidade, o típico estereótipo da mulher poderosa glamourosa, de salto alto, bem vestida, óculos escuros e muita maquiagem, que eventualmente fala com uma voz dócil e sensual como forma de chamar a atenção dos homens e é coagida a ter relações sexuais com eles. Não acho isso “empoderador”. Esse estereótipo pressupõe que, para ser uma mulher de poder, é preciso ser bonita, sensual e bem vestida. Mulheres não se bastam. Não são suficientes como são.

Então não tenhamos memória curta. Isso que a Anitta fez não era “empoderador” há vinte anos atrás e não é “empoderador” hoje, não importa que as mulheres sejam periféricas. As mulheres não são mais livres dessa forma e o respeito por elas não aumentou por conta disso. Muito pelo contrário, isso denigre a imagem das mulheres.

Portanto, é cabível um paralelo deste estereótipo com a carreira da Anitta. Vemos uma mulher que saiu da pobreza fazendo músicas que falavam sobre seu corpo e sua feminilidade (de novo, negativamente), sempre fazendo questão de mostrar seu corpo quase nu dançando nos clipes da forma mais provocativa possível, assim agradando homens e alcançando a fama. Rebaixando-se para ganhar privilégios.

Entendam que não acho que iremos destruir o patriarcado difamando as músicas da Anitta. Mais uma vez, acho ótimo que ela tenha conseguido fazer dinheiro como conseguiu. Mas a imagem que se construiu envolta dela como alguém com atitudes feministas por ser “empoderada” e trazer uma boa representatividade para as mulheres é mentiroso. Não há nada de feminismo nisso e o fato de que isso é visto como feminismo denigre a imagem do movimento. É patético. Anitta não é feminista por ganhar dinheiro se sexualizando.