A tirania do “preciso acertar”. O futuro é hoje!

Turner Time

Eu tenho que ter o emprego dos sonhos agora! Tenho que receber minha promoção agora! Tenho que ser o melhor! A vida não espera! Eu vou ficar para trás! Preciso estar em dois lugares ao mesmo tempo! O futuro já chegou!

Por diversas vezes vejo este discurso sendo reproduzido no mundo corporativo, seja ele por gestores cobrando seus funcionários ou de auto cobrança. Esta tendência comportamental é mais presente em determinadas gerações, mas são traços que estão cada vez mais fortes no dia a dia e em todas as idades. Há um medo generalizado de não atender as expectativas de si próprio e do outro.

Ao fazer uma auto análise, reconheço que desde adolescente me preocupava demasiadamente com a minha performance e com o futuro. Me cobrava muito e quando algo não saia como eu esperava, era uma chateação. Claro que reconheço que esta preocupação me deu senso de responsabilidade e engajamento. Me trouxeram até aqui, mas vejo com maior clareza que as coisas não precisavam ser exatamente assim.

Este comportamento resultou em diversos contratempos, dificuldade de relacionamento na escola, temas que até hoje são pautas de terapia (risos). Quando faço a relação entre resultado e tempo vejo como esse comportamento está mais explícito. Tenho sempre a sensação de que as coisas estão atrasadas para acontecer

Mas estão? Quem determina o tempo de cada um?

Além da enorme vontade de “dar certo” ainda temos o ambiente, que muda a todo momento, nos cobrando a acompanhar este ritmo. É fato que estamos em uma sociedade ansiosa (Quando me respondem em uma entrevista que o seu ponto a melhorar é a ansiedade, respondo que este é o problema dele e do mundo. Então ele pode ir para o próximo. Dica: se você responde isso, mude, pega mal).

Dr. Brown e Marty Mcfly

Vimos o mundo mudar rápido demais nos últimos 30 anos. Para os nascidos a partir dos anos 80 a mudança está na veia, quando a trilogia “De Volta para o Futuro” fez suas previsões. Tenho minhas dúvidas se eles acreditavam que elas seriam possíveis e, hoje, exatamente no dia da volta de Marty Mcfly e Dr. Brown (21/10/2015) 30 anos depois, muitas delas são reais e este é só o começo.

Segundo Ray Kurzweil, inventor e futurista, em dez anos, teremos smartphones e outros dispositivos computacionais mil vezes mais poderosos que os atuais. Em 20 anos, eles serão 1 milhão de vezes mais poderosos, em 2029, haverá computadores capazes de conversar tão bem quanto um ser humano. Kurzweil é reconhecido pelos maiores do mundo digital, seu maior fã? Bill Gates.

Com todas estas perspectivas, é esperado uma dificuldade de equilíbrio para todos nós. Ainda estamos aprendendo a conciliar: mudança, cobrança, trabalho, família, vida social, interação digital e tudo mais em nosso cotidiano. Nem Dr. Brown foi capaz de prever como nós nos comportaríamos diante destes avanços. Importante lembrar que de forma alguma isto é uma crítica as mudanças, pelo contrário, entendo que este é um movimento que nós buscamos, estamos apenas em adaptação.

Neste contexto busquei então explorar as consequências desta ansiedade pelo futuro. Desde o medo em não atender as expectativas, que consome as nossas relações, direciona o nosso comportamento e nosso desenvolvimento como profissional e como indivíduo.

Tenho lido nos últimos tempos diversos artigos da Carol Dweck, professora de Psicologia que já passou pelas universidades de Columbia, Harvard, Illinois e atualmente está em Stanford. Sua principal linha de pesquisa é a motivação para o desenvolvimento. Compartilho aqui um link do TED, que exemplifica um pouco as ideias da autora. https://www.ted.com/talks/carol_dweck_the_power_of_believing_that_you_can_improve?language=pt-br

Ela aponta o quanto a nossa vontade de acertar e pressão da expectativa pode influenciar nossos resultados. O nosso desenvolvimento e a construção do futuro estão totalmente ligados pela forma como aprendemos e como lidamos com os erros. Segundo Dweck, somos pressionados e desafiados em aprender ao longo de toda a nossa vida. É esperado que tenhamos erros neste processo e, quando eles ocorrem, temos a tendência de seguir dois modelos mentais:

O primeiro que ela chama de “Growth Minds”. Em uma tradução livre, seria algo como uma mente voltada para o desenvolvimento. Neste modelo sua resposta ao erro é de quem está seguindo uma trilha para o conhecimento. Você está no caminho, entende suas limitações e busca aprender com ele. Adora mudanças, pois elas significam novos desafios e oportunidades.

No segundo modelo, que ela chama de “fixed mindset perspective”, o indivíduo entende o desafio sempre como um risco. Que sua inteligência foi colocada à prova, como um julgamento, e a tendência neste modelo é o fracasso.

Em uma pesquisa realizada com alunos da quinta série, se percebeu que os Growth Minds, a longo prazo, possuem uma história de sucesso e transformaram as suas dificuldades estrategicamente para o crescimento.

Já os fixed mindset perspective ficaram estagnados, sofrendo com o fato de não terem tido o resultado esperado. Aquele fracasso significava uma perda tão grande no agora, que eles preferiam não ter que ser testados novamente. Quando forçados a ir para a segunda tentativa, tentavam dar um jeitinho, ou trapaceavam, em vez de estudar mais, já com medo do erro. E não paravam por ai! Na terceira tentativa que não iam bem, eles começaram a procurar nos colegas, um que apresentou um resultado pior do que eles, buscando tirar o foco de si e colocar no outro.

Dweck busca conscientizar pais, professores e gestores da importância de não apontar o erro e sim conscientizar que ele é um ainda, você ainda não aprendeu. Incentivar Growth Minds e não reforçar indivíduos para o fracasso, por não saberem lidar com a expectativa do mundo sobre o seu resultado. Esta pesquisa possui muitas vertentes, inclusive o papel do ambiente em proporcionar técnicas pedagógicas mais envolventes, professores bem preparados, não se limitar a culpabilização apenas do indivíduo, mas neste texto vou me deter apenas aos resultados já apresentados.

Ao levar esta pesquisa para o cotidiano do trabalho, podemos fazer diversas correlações. Quantos colegas, ou nós mesmos estamos frustrados com nosso resultado? Há muita busca pelo reconhecimento de forma rasa, com resultado de curto prazo. Se houver um erro ele fica mal resolvido em vez de interagir e aprender, não há espaço e nem tempo para isso.

Quantas vezes preferimos não tentar algo novo, já se esquivando de uma possível frustração? Sem contar aqueles que quando erram procuram um colega para justificar os seus fracassos. Mas neste mundo de mudança constante, porque não conseguimos transformar a ansiedade em ação?

Não fomos criados para o modelo Growth Minds. Somos cobrados por resultados e por boa performance no agora. Muitos devem estar olhando para os seus gestores, pais e professores e pensando: Sociedade você me cobra demais! Mas e você? Tem dado oportunidade para quem está do seu lado, tempo para aprender com os erros? Ou tem reproduzido o mesmo modelo?

Para mim resiliência, flexibilidade e empatia são as chaves para promoção de um ambiente voltado para o desenvolvimento e para uma mudança gradativa. Precisamos parar de reproduzir este modelo primeiro em nós e estender para todo os demais. Lidar melhor com erros, com as nossas expectativas, com o nosso futuro, não buscar resultados rápidos sem fundamentos, demonstrar que o ainda é um construção e não ficar estagnado.

“A educação está em constante movimento e não combina com repouso” Mario Sergio Cortella

Esta frase resume a ideia que quis passar com esta reflexão. Não reconheço outra forma de buscar os melhores resultados a não ser: 1. Diminuindo as cobranças em si próprio e no outro. 2. Muito esforço e trabalho. 3. Resiliência, flexibilidade e empatia (competências). 4. Parar de culpar o mundo pelo seu fracasso e se engajar na resolução dos erros.

Não é uma tarefa simples. Podemos passar a vida buscando atitudes growth mind, mas é preciso começar de algum lugar, é preciso entender a dinâmica e influenciá-la.

Para finalizar, deixo aqui a minha homenagem ao dia de hoje: “O futuro ainda não foi escrito, não existe, seu futuro é o que você quiser fazer. Portanto FAÇA O BEM!” De volta para para o futuro III

Até a próxima!

Referências:

Blackwell, L., Trzesniewski, K., & Dweck, C. (2007). Implicit Theories of Intelligence Predict Achievement Across an Adolescent Transition: A Longitudinal Study and an Intervention. Child Development, Vol. 78, No. 1, pp. 246–263.

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