Quer ser mais inteligente? Aprenda a dizer “Eu não sei”

Camila Berteli
Jul 21, 2017 · 6 min read

Se você parar para pensar…

Todos nós conhecemos, nem que seja por ouvir falar, a história de Sócrates, Platão e vários outros reconhecidos pensadores da Grécia antiga. O que pouca gente sabe é o que marcou o início de toda essa onda pensante grega.

Segundo a mitologia, havia na Grécia Antiga um importante centro religioso chamado Oráculo de Delfos, o templo era dedicado ao deus Apolo, na sua entrada estava escrita uma das frases mais conhecidas da filosofia: “Conhece-te a ti mesmo“. Foi a partir deste oráculo grego que se deu início e se definiu os rumos de toda a filosofia ocidental.

O Oráculo de Delfos, localizado na cidade de Delfos, região central da Grécia.

No oráculo vivia Pítia (em grego: Πυθία, transl. Pythía) ou pitonisa (serpente) que era a sacerdotisa. Inspirada por Apolo, ela respondia às perguntas dos visitantes do oráculo. Certa vez um homem conhecido por Querofonte perguntou ao oráculo: “Quem era o homem mais sábio de Atenas?” A sacerdotisa declarou que o homem mais sábio de Atenas era Sócrates. Querofonte voltou para Atenas e levou a novidade até Sócrates.

Ao saber disso, Sócrates não aceitou a afirmação do Oráculo, pois não se acreditava sábio. Seguiu então dialogando, por toda a sua vida, com muitas personalidades de Atenas reconhecidas como sábios. Fazendo a tão famosa metodologia dialógica, que nada mais é, do que falar sobre o assunto, abrir espaço para o diálogo, provocar a chuva de ideias, mais conhecido hoje como Brainstorming.

“Sócrates um mito fazendo brainstorming e desing thinking, 400 anos antes de Cristo.”

O que aconteceu então é que ao conversar com todos esses sábios, Sócrates percebeu que todos caiam em contradição, concluiu então que ele não era o mais sábio por saber mais, mas sim por saber que nada sabia, ao contrário dos “sábios” da cidade.

Esta frase ilustra bem sua conclusão: “Ninguém de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, estou certo de não saber“. Daí vem sua máxima: “Sei que nada sei“. O deus Apolo, portanto, estava certo!

A grande questão é que se Sócrates vivesse hoje, ele provavelmente teria ficado desapontado. Não aprendemos nada! Parece que vivemos em um mundo onde todos estão sempre certos e ninguém está disposto a admitir que pode estar errado. É mais vital ter opinião do que realmente entender o conteúdo dessa opinião.

De alguma forma, decidimos que é bom manter crenças baseadas em afiliação cega ao invés de pensamento crítico. E se você não tomar um lado imediatamente, você pode ser evitado ou ser rotulado como ignorante.

Ahh isso não é novo para ninguém, sabemos disso. Mas quando olhamos para a internet, esse comportamento de: preciso ter uma opinião, é muito visto. Por uma série de motivos, temos tendência a nos conectar de uma forma quase apaixonada para certas coisas e isso nos incapacita de ver o outro lado.

A questão então, reside na nossa incapacidade de aceitar humildemente que não podemos nem devemos saber tudo; Que, muitas vezes, estamos errados.

A Irracionalidade da Certeza

Tudo o que vemos e observamos ao nosso redor é uma espécie de ilusão do todo. A neurociência afirma que nossos sentidos só recebem uma pequena fração da informação disponível em nosso ambiente, e nossos cérebros processam conscientemente uma parte ainda menor.

Há cheiros que nós fisicamente não podemos cheirar, há lugares no mundo para testemunhar além da capacidade dos nossos olhos, há sons a serem ouvidos que nunca ouviremos completamente e há pensamentos influentes em nossa mente subconsciente que, nem podemos começar a nos relacionar ou imaginar.

Tudo isso está em um nível muito básico. Se adicionarmos a complexidade trazida como resultado de nossas interações com o mundo através dos sistemas e ideologias existentes, é ainda mais improvável que tenhamos o conhecimento completo.

Nenhum de nós está certo. A certeza é uma ilusão, e não há vergonha de estar errado porque, por natureza, toda a nossa percepção do mundo está errada. Ao longo do tempo, nós progredimos e prosperamos em nossos ambientes sendo menos equivocados. Nós sentimos ao redor, nós testamos, e nos questionamos até que algo funcione. Por isso a incerteza não é uma condição a ser evitada, mas uma ferramenta poderosa para melhores decisões.

Afiliação exagerada, cega!

A principal forma de lidar com o desconforto da incerteza é através da afiliação. Sabe aquele jargão de que a desgraça une. O senso comum explicou muito bem o que é esse gatilho psíquico.

De certa forma, se não temos uma opinião totalmente formada, faz sentido olhar para as ideologias, grupos e pessoas com as quais geralmente nos identificamos porque já existe um histórico comprovado de alinhamento. Se os admiramos é porque, provavelmente eles estão certos.

Chamamos isso de heurística, e ela é útil, nosso cérebro economiza sua atuação quando se trata de pequenos assuntos, usa isso como um atalho. Seguindo comportamentos de pessoas já validadas.
Pensar é um trabalho árduo, e vale a pena conservar essa energia quando possível.

O problema ocorre quando usamos isso de forma extrema, deixamos o peso de nossa lealdade a um herói ou autor pessoal, determinar como fazemos as coisas e como damos sentido ao mundo em vez de raciocinar criticamente.

Outro risco é que, ao longo do tempo, nos aproximamos afetivamente dessas decisões e, eventualmente, formamos uma conexão com algo que fundamentalmente nunca questionamos.

Todo mundo é uma soma total de suas próprias experiências únicas, e nenhuma dessas experiências é alinha perfeitamente com qualquer outra pessoa ou sistema ideológico. Meu primeiro recado é: melhor não ter uma opinião do que perseguir ingenuamente a outra pessoa.

O valor de “Eu não sei”

Reconhecer a ignorância é realmente preciso. Às vezes, a melhor resposta é simplesmente “Não sei”. Mas cuidado, isso não pode ser uma desculpa para praticar indiferença ou evitar decisões difíceis. Trata-se apenas de escolher manter a competência de pensar e de ter consciência para então tomar a decisão, ou colocar uma opinião. Diariamente, haverá coisas que não entendemos. Se não forem relevantes, está certo não saber. Se forem, é melhor ter tempo para pensar.

Isso pode parecer bastante intuitivo mas, no entanto, a grande maioria das pessoas raramente se sentem confortáveis ​​o suficiente para não saber. Preferimos defender algo com uma base solta, preferimos a certeza, mesmo depois de sermos contrariados ao invés de reconsiderar. A longo prazo, nenhuma dessas táticas tende a levar a uma perspectiva saudável.

“Eu não sei” não só nos mantém em nosso círculo de competência e conscientização, onde o risco de danos potenciais é baixo, mas também funciona como uma ferramenta de feedback. Se eu não sei então preciso ler, ouvir, conversar com amigo, buscar informações para saber.
É uma vantagem competitiva, porque acrescenta um incentivo para quebrar criticamente as coisas em vez de tomar a saída fácil. Isso nos obriga a ficar mais inteligentes.

É bom levar tempo para formar uma opinião, e é útil reconhecer a ignorância. Vivemos em um mundo saturado de ideias, e nem todas são boas, e nem todas são adequadas para todos. Faça perguntas, seja crítico e não tenha medo de mudar de ideia. Não há regras para não fazê-lo. Ninguém progride em pé no mesmo lugar, e não chegamos onde queremos, estando sempre certos. Tudo é tentativa e erro, e se você realmente quer entender o mundo, você deve estar confortável com isso. Estar preparado para abrir sua mente.

Para fechar deixo o uma frase que gosto muito para reflexão:

Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer.

Carlos Drummond de Andrade

Curiosidades:

1 — Já falei um pouco sobre a importância de ter uma mente em constante evolução no texto:

2 — O Oráculo de Delfos no cinema:

O filme 300 retrata uma consulta de Leônidas, o rei de Esparta, ao Oráculo de Delfos. Os vapores do solo foram substituídos por um incensário e os sacerdotes surgem como homens deformados. Simbolicamente isso representaria, na história, a corrupção moral dos sacerdotes, pois estão envolvidos em conspiração com Xerxes, imperador da Pérsia, contra a Grécia. Pitia é retratada por uma linda jovem Grega que vive no oráculo.

Claro, toda a cena é uma visão artística de Frank Miller, mas inspirada na forma como as consultas ao Oráculo eram realizadas.

)

Camila Berteli

Written by

Psicóloga, rebelde, nerd, educadora, freudiana e potterhead. Apaixonada por livros, cinema, arte, filosofia, história e pessoas!

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade