Quer ser mais inteligente? Aprenda a dizer “Eu não sei”
Se você parar para pensar…

Todos nós conhecemos, nem que seja por ouvir falar, a história de Sócrates, Platão e vários outros reconhecidos pensadores da Grécia antiga. O que pouca gente sabe é o que marcou o início de toda essa onda pensante grega.
Segundo a mitologia, havia na Grécia Antiga um importante centro religioso chamado Oráculo de Delfos, o templo era dedicado ao deus Apolo, na sua entrada estava escrita uma das frases mais conhecidas da filosofia: “Conhece-te a ti mesmo“. Foi a partir deste oráculo grego que se deu início e se definiu os rumos de toda a filosofia ocidental.

No oráculo vivia Pítia (em grego: Πυθία, transl. Pythía) ou pitonisa (serpente) que era a sacerdotisa. Inspirada por Apolo, ela respondia às perguntas dos visitantes do oráculo. Certa vez um homem conhecido por Querofonte perguntou ao oráculo: “Quem era o homem mais sábio de Atenas?” A sacerdotisa declarou que o homem mais sábio de Atenas era Sócrates. Querofonte voltou para Atenas e levou a novidade até Sócrates.
Ao saber disso, Sócrates não aceitou a afirmação do Oráculo, pois não se acreditava sábio. Seguiu então dialogando, por toda a sua vida, com muitas personalidades de Atenas reconhecidas como sábios. Fazendo a tão famosa metodologia dialógica, que nada mais é, do que falar sobre o assunto, abrir espaço para o diálogo, provocar a chuva de ideias, mais conhecido hoje como Brainstorming.
“Sócrates um mito fazendo brainstorming e desing thinking, 400 anos antes de Cristo.”
O que aconteceu então é que ao conversar com todos esses sábios, Sócrates percebeu que todos caiam em contradição, concluiu então que ele não era o mais sábio por saber mais, mas sim por saber que nada sabia, ao contrário dos “sábios” da cidade.
Esta frase ilustra bem sua conclusão: “Ninguém de nós sabe nada de belo e de bom, mas aquele homem acredita saber alguma coisa sem sabê-la, enquanto eu, como não sei nada, estou certo de não saber“. Daí vem sua máxima: “Sei que nada sei“. O deus Apolo, portanto, estava certo!
A grande questão é que se Sócrates vivesse hoje, ele provavelmente teria ficado desapontado. Não aprendemos nada! Parece que vivemos em um mundo onde todos estão sempre certos e ninguém está disposto a admitir que pode estar errado. É mais vital ter opinião do que realmente entender o conteúdo dessa opinião.
De alguma forma, decidimos que é bom manter crenças baseadas em afiliação cega ao invés de pensamento crítico. E se você não tomar um lado imediatamente, você pode ser evitado ou ser rotulado como ignorante.
Ahh isso não é novo para ninguém, sabemos disso. Mas quando olhamos para a internet, esse comportamento de: preciso ter uma opinião, é muito visto. Por uma série de motivos, temos tendência a nos conectar de uma forma quase apaixonada para certas coisas e isso nos incapacita de ver o outro lado.
A questão então, reside na nossa incapacidade de aceitar humildemente que não podemos nem devemos saber tudo; Que, muitas vezes, estamos errados.
A Irracionalidade da Certeza
Tudo o que vemos e observamos ao nosso redor é uma espécie de ilusão do todo. A neurociência afirma que nossos sentidos só recebem uma pequena fração da informação disponível em nosso ambiente, e nossos cérebros processam conscientemente uma parte ainda menor.
Há cheiros que nós fisicamente não podemos cheirar, há lugares no mundo para testemunhar além da capacidade dos nossos olhos, há sons a serem ouvidos que nunca ouviremos completamente e há pensamentos influentes em nossa mente subconsciente que, nem podemos começar a nos relacionar ou imaginar.
Tudo isso está em um nível muito básico. Se adicionarmos a complexidade trazida como resultado de nossas interações com o mundo através dos sistemas e ideologias existentes, é ainda mais improvável que tenhamos o conhecimento completo.
Nenhum de nós está certo. A certeza é uma ilusão, e não há vergonha de estar errado porque, por natureza, toda a nossa percepção do mundo está errada. Ao longo do tempo, nós progredimos e prosperamos em nossos ambientes sendo menos equivocados. Nós sentimos ao redor, nós testamos, e nos questionamos até que algo funcione. Por isso a incerteza não é uma condição a ser evitada, mas uma ferramenta poderosa para melhores decisões.
Afiliação exagerada, cega!
A principal forma de lidar com o desconforto da incerteza é através da afiliação. Sabe aquele jargão de que a desgraça une. O senso comum explicou muito bem o que é esse gatilho psíquico.
De certa forma, se não temos uma opinião totalmente formada, faz sentido olhar para as ideologias, grupos e pessoas com as quais geralmente nos identificamos porque já existe um histórico comprovado de alinhamento. Se os admiramos é porque, provavelmente eles estão certos.
Chamamos isso de heurística, e ela é útil, nosso cérebro economiza sua atuação quando se trata de pequenos assuntos, usa isso como um atalho. Seguindo comportamentos de pessoas já validadas.
Pensar é um trabalho árduo, e vale a pena conservar essa energia quando possível.
O problema ocorre quando usamos isso de forma extrema, deixamos o peso de nossa lealdade a um herói ou autor pessoal, determinar como fazemos as coisas e como damos sentido ao mundo em vez de raciocinar criticamente.
Outro risco é que, ao longo do tempo, nos aproximamos afetivamente dessas decisões e, eventualmente, formamos uma conexão com algo que fundamentalmente nunca questionamos.
Todo mundo é uma soma total de suas próprias experiências únicas, e nenhuma dessas experiências é alinha perfeitamente com qualquer outra pessoa ou sistema ideológico. Meu primeiro recado é: melhor não ter uma opinião do que perseguir ingenuamente a outra pessoa.

O valor de “Eu não sei”
Reconhecer a ignorância é realmente preciso. Às vezes, a melhor resposta é simplesmente “Não sei”. Mas cuidado, isso não pode ser uma desculpa para praticar indiferença ou evitar decisões difíceis. Trata-se apenas de escolher manter a competência de pensar e de ter consciência para então tomar a decisão, ou colocar uma opinião. Diariamente, haverá coisas que não entendemos. Se não forem relevantes, está certo não saber. Se forem, é melhor ter tempo para pensar.
Isso pode parecer bastante intuitivo mas, no entanto, a grande maioria das pessoas raramente se sentem confortáveis o suficiente para não saber. Preferimos defender algo com uma base solta, preferimos a certeza, mesmo depois de sermos contrariados ao invés de reconsiderar. A longo prazo, nenhuma dessas táticas tende a levar a uma perspectiva saudável.
“Eu não sei” não só nos mantém em nosso círculo de competência e conscientização, onde o risco de danos potenciais é baixo, mas também funciona como uma ferramenta de feedback. Se eu não sei então preciso ler, ouvir, conversar com amigo, buscar informações para saber.
É uma vantagem competitiva, porque acrescenta um incentivo para quebrar criticamente as coisas em vez de tomar a saída fácil. Isso nos obriga a ficar mais inteligentes.
É bom levar tempo para formar uma opinião, e é útil reconhecer a ignorância. Vivemos em um mundo saturado de ideias, e nem todas são boas, e nem todas são adequadas para todos. Faça perguntas, seja crítico e não tenha medo de mudar de ideia. Não há regras para não fazê-lo. Ninguém progride em pé no mesmo lugar, e não chegamos onde queremos, estando sempre certos. Tudo é tentativa e erro, e se você realmente quer entender o mundo, você deve estar confortável com isso. Estar preparado para abrir sua mente.
Para fechar deixo o uma frase que gosto muito para reflexão:
Há certo gosto em pensar sozinho. É ato individual, como nascer e morrer.
Carlos Drummond de Andrade
Curiosidades:
1 — Já falei um pouco sobre a importância de ter uma mente em constante evolução no texto:
2 — O Oráculo de Delfos no cinema:
O filme 300 retrata uma consulta de Leônidas, o rei de Esparta, ao Oráculo de Delfos. Os vapores do solo foram substituídos por um incensário e os sacerdotes surgem como homens deformados. Simbolicamente isso representaria, na história, a corrupção moral dos sacerdotes, pois estão envolvidos em conspiração com Xerxes, imperador da Pérsia, contra a Grécia. Pitia é retratada por uma linda jovem Grega que vive no oráculo.
Claro, toda a cena é uma visão artística de Frank Miller, mas inspirada na forma como as consultas ao Oráculo eram realizadas.
