Se prepare para o acaso!

Camila Berteli
Aug 22, 2017 · 6 min read

Esteja aberto e pronto para o inesperado…

Todos nós humanos temos dificuldade de assimilar o aleatório, a garantia de que as coisas possuem uma ordem e um porque, nos dá segurança e estabilidade. Para as grandes indagações inventamos a ciência que busca explicar o mundo e as religiões para explicar a nossa fé e a nossa origem. Para as pequenas coisas buscamos organização, na nossa rotina, usamos metodologias que ajudem a organizar nossas tarefas, criamos uma agenda para prever tudo que for possível. Em tudo que se faz a competência de organização e a capacidade de antecipar problemas é muito valorizada. Dar ondem ao universo é nossa essência, queremos prever os acontecimentos e estarmos preparados para eles.

Acontece que nosso alto poder investigativo de prever fenômenos nos levou justamente a comprovação de que há fenômenos que não podemos controlar ou prever. Na ciência chamamos isso de Princípio da Incerteza, de Heisenberg.

Você deve estar pensando, já ouvi este nome! Sim, se você estudou exatas com certeza ouviu o nome do cientista, ou se é um apaixonado por séries também: Werner Heisenberg é o verdadeiro “Heisenberg”, a inspiração por trás do alter ego de Walter White, em Breaking Bad. Aqui a escolha não foi por acaso. Tudo indica que é uma metáfora para Walter White e Jesse Pinkman.

É impossível afetar um deles, sem afetar o outro. Como é possível ver na série, cada vez que nosso mestre cozinheiro e seu sous-chef tentaram se separar, acabam voltando a se juntar, voluntária ou involuntariamente, mais ou menos como ímãs. Falando nisso, Heisenberg também é o homem que resolveu o mistério do “ferromagnetismo”, ou seja, o motivo de certos materiais se tornarem ímãs.

Mas o mais importante para nós aqui é que foi Werner Heisenberg em 1927 que descobriu que é impossível medir a posição (x) e o momentum (p) de uma partícula com precisão absoluta, e o que isto tem a ver com o acaso? TUDO. É sobre esta máxima que se baseia muito dos conceitos de teoria quântica e o ponto de partida para se questionar sobre o acaso e a incerteza.

É a chance ou a possibilidade diante de toda a preparação.

Frente a um universo que busca incansavelmente uma explicação, era de suspeitar que esta ideia não fosse tão aceita, nem todo mundo acreditava nesta máxima. Albert Einstein era um deles!

Com a frase “Deus não joga aos dados” ele deixou claro que não validava a aleatoriedade do universo, apesar de ser considerado o pai da teoria quântica com sua teoria do efeito fotoelétrico. Einstein era fortemente contra o Princípio da Incerteza de Heisenberg, por achar que devido a esse princípio, a Mecânica Quântica falhava em explicar a realidade. O que Einstein não aceitava eram as consequências desta teoria, que dizia que alguns fenômenos da natureza, e por sua vez, a própria natureza, não eram possíveis de serem determinados. Para ele tudo isso contrariava seus princípios.

Em resposta, mais recentemente, Stephen Hawking (autor de Uma Breve História do Tempo e O Universo numa Casca de Noz), declarou: “Deus não só joga dados, como os esconde onde não podemos ver…” Em seu livro ele explica de forma clara como os conceitos da teoria quântica impactam no entendimento no universo.

Mas afinal quem tem razão? Este tema é um “Paradoxo” pois dos dois lados as teorias possuem estudos consistentes e mais, são complementares. Toda esta introdução foi uma tentativa cientifica de te convencer que sim, você deve se preparar, buscar antecipar problemas, investir em você mesmo levando em conta que o universo possui um determinismo e uma causa e efeito, mas que, por mais determinante que você busque ser na sua vida, há sim fatores que podem acontecer que mudam todos os seus planos.

Alguns defendem que são acontecimentos fantásticos, religiosos, destino, sorte, chamem do que quiser. Mas não se pode negar que o acaso está presente nas nossas vidas e que em alguns momentos o desejo por controle pode nos prejudicar.

Há alguns anos eu li um livro muito interessante sobre este tema chamado: O andar do bêbado — Como o acaso determina nossas vidas de Leonard Mlodinow. Neste livro ele busca identificar os indícios do acaso, apresenta como fazer escolhas mais acertadas e a conviver melhor com fatores que não podemos controlar. Um dos dados que ele apresenta logo no começo de sua história é:

“O primeiro Harry Potter, de J.K. Rowling (Diva, maravilhosa), foi rejeitado por nove editores e o manuscrito de “A firma’, de John Grisham só atraiu o interesse de editores depois que uma cópia pirata que circulava em Hollywood que lhe rendeu uma oferta de US$600 mil pelos direitos para a produção do filme.

Após 9 tentativas que não deram certo, quem diria que Harry Potter seria um fenômeno, quem diria que A firma renderia tanto. Sabe aquele dia que você esquece algo e quando volta para pegar percebe que o fato mudou seu caminho, fez toda a diferença, é disso que estamos falando.

Acaso ou sorte, a vida parece sempre ter uma boa razão para reprogramar nossos planos, de modo que esse rearranjo pode ou nos leva a outras possibilidades não controláveis, ora boas, ora nem tanto. Como resume Machado de Assis, “o acaso é um deus e um diabo ao mesmo tempo.”

Você pode por um acaso encontrar o sucesso de cara, encontrar alguém que simpatize com o seu estilo e que reconheça valor na sua produção, ou não! Há vezes em que por mais preparado que você esteja esta chance demore para bater na sua porta, ou que por um acaso a porta seja a melhor possível. Diante desta informação podemos ter duas escolhas:

1 — Permanecer na inércia, que é a nossa capacidade de resistir à mudança de movimento. O acaso pode vir ou não, mas você não faz nada aumentar as chances dele chegar.

2 — Trabalhar arduamente nos seus sonhos e planos, aumentando as chances de algo totalmente aleatório bater na sua porta.

Eu fico com a 2! Como observou Thomas Edison “muitos dos fracassos da vida ocorrem com pessoas que não perceberam o quão perto estavam do sucesso no momento em que desistiram!”

Se o acaso é inevitável e a sorte é fundamental, então o diferencial pode não ser o talento (ainda que ele seja necessário), mas a dedicação e a persistência.

Friedrich Nietzsche é duro ao defender que nenhum vencedor acredita no acaso, eu prefiro acreditar que como disse Pasteur: “O acaso favorece apenas a mente preparada”

Estar preparado para o acaso o deixa mais sensível para ele, só conseguimos avaliar se uma oportunidade do acaso pode ser transformadora para nossas vidas se minimamente conhecermos do que se trata tal caminho. Transformando um acaso em uma oportunidade!

Para fechar esta ideia deixo uma história de XVIII quando Horace Walpole descreveu, em carta a um amigo, um conto de fadas persa sobre as aventuras de três príncipes que faziam importantes e inesperadas descobertas ao acaso enquanto viajavam pela região de Serendip (antigo Ceilão, atual Sri Lanka).

Pelo caminho eles praticavam o Serendipity. O dom de fazer descobertas felizes por acaso! Da fantasia para o real, a história também se prova verdadeira, inúmeras serendipitys já foram feitas, como a penicilina, anestesia, o celofane, nylon, vacina de sarampo, aço inoxidável, Teflon, raios-X, forno de microondas e outros.

Estamos sempre vulneráveis a interferências o que nos resta é vivenciar cada experiência da melhor forma que podemos. Para estar aberto tudo isso é importante ser curioso, flexível, valorizar o conhecimento e estar aberto ao inesperado.

Crie acasos e quando a oportunidade chegar, esteja pronto!

O Acaso é, a rota da vitória, o erro da história, o que já não foi e ainda o que vai ser…

E você tem algum caso real onde o acaso foi uma serendipity? Acredita no principio da incerteza? Deixe um comentário. Até a próxima!

)

Camila Berteli

Written by

Psicóloga, rebelde, nerd, educadora, freudiana e potterhead. Apaixonada por livros, cinema, arte, filosofia, história e pessoas!

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