O pacote completo

Dilma,

Hoje, seu impeachment foi aprovado pelo Senado. Acaba assim, com 61 votos a favor e 20 contra, o seu mandato de presidente do Brasil. Dilma como personagem histórica nasce hoje, em definitivo. O passado de guerrilheira, a origem em Minas Gerais, a vida no Rio Grande do Sul, a atuação no setor de energia, a aproximação de Lula, os Ministérios, as campanhas, a presidência — tudo isso se firma agora como mais um capítulo da sua e da nossa história.

Não quero tratar dos argumentos de quem defendia sua saída do governo e de quem defendia sua permanência. Sobre a questão política, todos já falaram bastante. O que quero lhe dizer é de outra natureza: é pessoal, Dilma.

Você errou, Dilma.

E, basicamente, porque confiou demais nas pessoas. Confiou que tinha apoio incondicional. Que os acordos políticos seriam honrados. Confiou na democracia construída no Brasil. E confiou muito em você. Porque, não sei se sabe, mas a gente erra muito. E de novo. E em diversas vezes, às vezes com os mesmos erros.

Sabe quando a gente passa no vestibular, compra um apartamento, arranja um cliente novo, consegue um novo emprego, ou convence o chefe a dar um aumento? É nesse momento de “glória” que todas as inseguranças, riscos e crises se instalam de verdade. Porque a conquista, seja ela qual for, é transitória, vai passar. No seu lugar, virá o sentimento de “começar de novo”.

Ter sido eleita, antes que uma vitória, era para ser um permanente estado de alerta. Pode chamar isso de neurose. Mas, Dilma, você tem 68 anos, já foi torturada, é mãe e avó, já foi esposa, sobreviveu a um câncer, é mulher e de esquerda. Todos os holofotes estavam mais do que voltados para você. Porque você no poder, ah, era algo improvável, e até hoje muita gente ainda não entendeu direito como aconteceu.

Você nunca poderia ter errado.

Mas você errou. Você confiou demais, foi fiel demais, não soube ser simpática, não fez política, foi sempre muito firme. Dilma, não poderia ter sido assim. Faltaram os apertos de mão, os sorrisos pré-determinados, as concessões e os acordos. Faltou romper o cordão umbilical e instituir de fato o governo Dilma, que não houve. Faltou falar bonito, contar piadinhas e ser um pouco bobinha para as câmeras. Dilma, você foi sempre muito séria.

Ninguém contesta: você é uma vencedora. Mas, Dilma, a gente não pode apenas vencer, entendeu? É preciso ser agradável, simpática, bem-humorada, inteligente, charmosa, bem vestida, magra, jovem, acolhedora, desejável, carinhosa, gentil, perfeitinha. E não pode errar, Dilma. Não pode. Anota aí pra não esquecer.

Hoje, 31 de agosto, é o dia em que a presidente Dilma foi impedida de continuar no poder. E o dia que irá sempre nos lembrar que não dá só pra vencer. Tem que ter o pacote completo.

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