Como era o curioso ambiente de trabalho no Comitê Organizador dos Jogos Rio2016

Não se surpreenda se no meio da reunião, sentar-se ao seu lado um famoso atleta olímpico, nem se lá vem a ola do outro lado do escritório no meio do expediente. Trabalhar no escritório da Rio 2016 tinha suas excentricidades e uma cultura particular formada de pessoas de todas as partes do mundo com experiências bem distintas.

O trabalho era integrado.

No primeiro momento éramos agrupados por departamento nos imensos andares sem divisórias. Com o conhecimento do trabalho de nossas áreas, mais à frente, recebemos caixas e etiquetas para organizar nossos pertences que foram devidamente movidos durante a noite. Nos juntamos a novos grupos no escritório conforme local de trabalho durante os jogos (Maracanã, Estádio Olímpico, etc). Muitas vezes havia troca de e-mails diários com quem nunca tínhamos visto, e a oportunidade de sentar em mesas sem divisórias com colegas de outros departamentos enriquecia o trabalho e agilizava a comunicação. Era uma forma orgânica de aprender mais rápido o que outras áreas faziam e contribuir melhor com suas operações.

O trabalho era democrático.

O ambiente de esporte é informal, então não era incomum ver figuras do alto escalão usando tênis, por exemplo. Não havia dress code. Era uma zona de respeito à diversidade: funcionários, voluntários, convidados, celebridades e atletas circulavam pelos corredores com o foco na produtividade. Tinha gente de todos os backgrounds, de todos os cantos do país — e do mundo — e cada um com formas diferentes de trabalhar. Gente trabalhando em pé com standing desk e gente trabalhando no sofá, uns falando alto e uns concentrados com fone, colegas que só começavam o dia com uma caneca de café e outros que chegavam oferecendo chimarrão. Alguns compartilhavam o mouse e a senha da impressora e alguns tinham o espaço delimitado da mesa com uma fita e nome na cadeira. Estas diferenças eram um reflexo dos conhecimentos e estilos variados que cada um trazia. Muitos vieram da área de eventos ou projetos, outros eram atletas, outros tinham conhecimento específico de suas áreas. Alguns vinham de outras Olimpíadas (os chamados ciganos olímpicos) ou Jogos Pan-americanos. Sempre havia um ponto de vista ou experiência de um colega que agregava e nos fazia repensar sobre nosso estilo de trabalho e de vida.

O trabalho era divertido.

Para renovar as energias com tanto a ser feito, colocávamos alegria. Mais de 3 mil pessoas trabalhavam no Comitê, assim havia aniversário toda semana com direito a cantar parabéns mobilizando todo o andar e convites online para bolo de chocolate na hora do lanche. Chá de bebê? Tem bolo. Vai trabalhar em outra instalação? Tem bolo. Sua vó faz docinhos deliciosos ou você trouxe quitutes das férias? Vamos compartilhar. Celebrar fazia parte do espírito esportivo. Uma pizza no fim da tarde pelas conquistas diárias ou a breve pausa para o chá com bolachas eram oportunidades únicas de conhecer colegas de outras áreas e trazer novas ideias para o departamento. As filas para receber os mimos das ações promocionais ou presentes da empresa (caneca, squeezer, ingressos, pins) eram grandes chances de esvaziar a mente por uns minutos e também saber mais sobre o andamento do projeto como um todo.

O trabalho era flexível.

Chegar cedinho tinha suas regalias: impressora sem fila, silêncio raro no andar, chance de conhecer a simpática equipe da limpeza, prosear com a copeira e o técnico de refrigeração. Momento perfeito para ser atendido sem espera no 0800 do suporte técnico. Era a oportunidade de ver o andar enchendo naturalmente até se tornar um microcosmo único. Já no fim do dia era preciso ser flexível para se adaptar a tanto agito. Enquanto algumas equipes só se falavam por Skype, outras faziam reunião no meio do corredor em alto e bom som. Uns preferiam participar de palestras ao vivo no auditório, outros assistiam pela televisão do andar que trabalhavam e aumentavam o volume quando havia uma reportagem sobre a Rio 2016. Enquanto uns se escondiam na copa para fazer uma tranquila reunião online em outra língua, era lá que outras equipes marcavam reuniões fervorosas na falta de uma sala disponível. De fora talvez parecesse um caos, mas havia espaço harmonioso para todos empenhados em preservar a liberdade de expressão. Acredite, não há registro de que tenha sido usado o saco de pancada no segundo andar com a placa “Nocaute no estresse”.

O Comitê Olímpico era uma mistura contraditória de processos burocráticos e espaço para criatividade e diversidade. O trabalho na Rio 2016 era integrado, democrático, divertido e flexível. Talvez esta tenha sido a forma que encontramos de transformar um ambiente de tanto trabalho em um lugar leve. O que ficou da experiência foi uma entrega brilhante da operação, grandes amizades e muito aprendizado.

Leia meu outros artigo sobre a incrível experiência nas Olimpíadas aqui e aqui.

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Publicado originalmente em LinkedIn