A verdade sobre ensinar a andar de bicicleta

fonte: revistagrupoa

Uma menina pedalava sua bicicleta livremente na praia. As rodinhas laterais de apoio empenadas não tocavam o chão, mas a criança tão segura, nem parecia perceber. Aí me preguntei:

Como aprendi a andar de bicicleta?

Lá na infância, eu andava alegremente colocando os pés no chão. Certa hora, um parente, sem que eu percebesse, me empurrou, na certeza de que eu não me estabacaria no chão. Ele estava certo, apesar das possibilidades, eu me lancei ao mundo pedalando para cima e para baixo desde aquele dia. Ele realmente acreditava no meu potencial e talvez aquele episódio tenha me feito experimentar liberdade e autoconfiança pela primeira vez.

Essa cena do passado também me permitiu por muito tempo carregar outro aprendizado — o de saber o que era melhor para o outro, de “empurrar” quem eu queria bem, acreditando estar fazendo o certo. Ora, as pessoas podem sempre ir além, basta um empurrão como o que me deram. Assim, fui me dando o direito de dizer o que o outro deveria fazer, de controlar o mundo no meu ritmo, de julgar que todo o meu carinho e bom senso era um justo ato de amor.

Até aí seria lindo, acontece que o primeiro sentimento que ficou desta história pós-susto do empurrão é de ter sido claramente desrespeitada do meu tempo. Vamos combinar: quanto atrevimento pensar que aquela era a hora certa de eu ser empurrada, quanta audácia não me perguntar se eu permitia aquilo e quanta ousadia me tirar a opção de escolher o momento que eu julgava adequado pedalar sem os pés no chão. Pode parecer exagero, afinal se eu não tivesse sido empurrada, talvez nunca tivesse aprendido a pedalar, nem tivesse me jogado em tantas oportunidades na vida. Não me leve a mal, minha bicicleta continua sendo a companheira de paz, energia e criatividade.

O que fica desta história é pedir permissão antes de dizer ao outro o que deve ser feito. É observar se aquele é o momento que o outro quer mesmo voar e se desafiar, ou se talvez eu esteja supondo que é. Quando me pego dando conselho ou irritada pelo tempo que o outro age ou vive, me pergunto o que eu ando querendo controlar. Que regras do meu mundo perfeito se encaixam no mundo perfeito dos que estão a minha volta? Será que dá pra adicionar um toque de empatia e altruísmo?

Pedalar sentindo o vento no rosto pelas ruas da cidade costuma trazer as respostas.