Capítulo 1

Eu pedi duas cervejas e você riu porque eu disse que até hoje não decidi minha marca preferida e porque já sei que você prefere uma vodka, mas eu queria fingir que mando em alguma coisa. No meio do riso você falou sério e perguntou por que eu ainda não estou na lista dos livros mais vendidos. Eu te lembrei que nunca escrevi um livro.

— Mas eu te li.
 — Não foram livros que tu leu.

Fiz questão de deixar claro. A minha biblioteca é imaterial, como é a biblioteca da maioria de nós, sabia? Deixamos tudo aqui dentro, ninguém vê ou ouve. A única diferença é que de vez em quando deixo ela falar mais alto, mas guardo a maioria em uma gaveta pra não correr o risco de ser alto demais e quebrar paredes ou janelas — não queremos estragos, veja bem. Mantenho as aparências da normalidade dentro do possível. Quando olho para o lado sei que todos estão fazendo a mesma coisa, cada um do seu jeitinho.

— Mas era tu.

Você me entendeu de cara. Isso é um problema, mas preferi não te dizer na hora. A gente tenta não assustar as pessoas durante os primeiros minutos. Calma, daqui uns 15 dias você vai ter me entendido até demais e já começará a partir, é quase uma cartilha pra todo mundo que acha que está começando a gostar de mim. É assim, é sempre assim, mesmo que a partida em si, de fato consumada, vá levar até mais uns meses.

— Então, você fala muito de amor.
 — Falar é falar, não é viver.
 — Você já se apaixonou?
 — Não sei… E você?
 — Já. Se você não sabe, então não se apaixonou.
 — E se eu só não estiver querendo admitir?
 — Então é porque ainda ama.

Você fala doce, mas a força é de um soco em cada sutileza. Não te culpo, eu ando precisando ouvir verdades, seja na mesa de um bar, numa cama a dois ou até pelo telefone. Talvez com você o tempo passe diferente, pensei comigo. Quem sabe os teus ponteiros se encaixem melhor no meu relógio do que os ponteiros estragados que ficaram. Quem sabe o teu despertador me traga um dia qualquer mais bonito.

— Gosto das coisas que tu escreve.
 — Obrigada… e desculpa, eu não sei falar das coisas que escrevo.
 — Do que tu sabe falar então?
 — ah, de futebol, mas meu time perdeu mais uma, então deixa pra lá. de música, mas não entendo de rock antigo ou música clássica, então finge que eu não falo disso também. eu sei falar de livros, pode ser?

E você me ouvia em silêncio tropeçar nas palavras pra tentar encontrar qualquer coisa que nos una. É engraçado como a gente vive desesperado buscando algum elo que não quebre entre nós e outra pessoa, como se fosse mesmo assim que as coisas funcionassem. E eu falei sem parar até perceber que não adiantava nada disso. Se você for gostar de mim, vai descobrir que às vezes acordo chorando no meio da noite sem motivo. Vai perceber que eu tenho medo de ser feliz. Vai ouvir falarem que eu nunca presto, mas que de vez em quando eu me ajeito e aí vale muito a pena. Você vai descobrir que eu gosto de gostar, mas que desaprendi pelo caminho.

— Tá tudo bem. eu também não sei falar de um monte de coisa de mim.
 — Como o quê?
 — Faculdade. Passei cinco anos com a certeza de estar fazendo tudo certo, mas aí peguei o diploma e não era nada disso.
 — Aconteceu com muita gente…
 — É, mas não deveria, só isso.
 — E o que você vai fazer?
 — E o teu livro?
 — E o nosso casamento?
 — A gente se conhece só há duas semanas, lembra?
 — É que o livro vai ser sobre ele.
 — ah é? E em que parte nós estamos?
 — Primeiro capitulo.

É, você me entendeu de cara.

— Já ouvi dizerem pra nunca me apaixonar por quem escreve.
 — ah, tudo bem, eu não tenho mesmo um livro.

você pousa a cabeça no meu ombro devagar e eu te faço um carinho leve como já fiz em tantas outras pessoas que logo escorregaram entre os meus dedos. mas com você não é só isso, eu entendi; com você é tudo isso.

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