Você viu?

Eu te deixei um recado ontem antes de dormir, talvez você nem tenha visto. Ah, eram aquelas coisas bobas de sempre, a minha mania de desejar que você tenha um dia bom pela frente e coisas assim. Você sabe, eu dou bola demais pra coisas assim porque os filmes e os livros de amor me ensinaram a tratar bem mesmo sem recompensa (e você nunca sabe me abraça ou me deixa por ser tão gentil).
Eu te deixei um beijo no ar semana passada, mas acho que você não percebeu também. Ia se despedindo já com pressa, o dia a dia é muito corrido, não é? Quem sabe no próximo dia em que a gente se ver, pensei, você perceba. Eu vivo esperando o próximo dia.
Eu te deixei uma carta dia desses, talvez você nem tenha lido até agora. Eu só tentava te explicar que amor não basta, entende? Que a gente precisa de outros jeitos pra sobreviver a dois. Que se amar é lindo, mas não basta. E como eu não soube falar ao vivo, tentei te falar na carta que a gente precisava criar um jeito ou outro pra isso bastar, mas acho que perdemos a hora. Talvez os jeitos fiquem pra nunca mais.
Eu te deixei em aberto um convite pra gente se ver, talvez você também não tenha visto. Pelo menos acho isso porque até agora não respondeu. Até agora não me viu, não sentou frente a frente, olho no olho, não me disse nada. Até agora não leu no meu rosto que eu não quero que você viva pra mim como tanto pensa, mas que aceite viver comigo, porque não pode ser tão ruim assim, certo? 
Eu te deixei uma música, talvez você nem tenha ouvido. É daquele cantor que você gosta e dizia coisas bonitas sobre nunca conseguir me desligar de você. Uma pena que toda música uma hora termina.

O fim do amor é sempre triste. Seja o que a gente vive, o dos amigos ou de um filme que passa na Sessão da Tarde. Mas o fim da vontade do amor é mais triste ainda. Porque o amor em si continua ali, mas a vontade já foi, ela se desgastou e perdeu a rota. Ficou pelo caminho sem mãos para dar, sem nós para desatar, sem “nós” para viver. De vez em quando um acaba com a bateria do outro. E fica tudo no recado que você nem viu, no beijo que não reparou, na carta que não leu, no encontro que não foi, na música que não ouviu… No “nós” que ficou pela metade. E amores pela metade são pratos frios para corações quentes, pelo menos é a lição que eu venho tentando decorar.

Você não sabe até quando eu vou ficar aqui. Eu tentei te dizer, talvez você não tenha percebido: já fui tantas vezes que decorei o caminho de volta.

Eu te deixei.

Talvez você nem tenha visto.

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