Waldorf D’Angola

No condomínio que eu moro tem um grupo de galinhas D’Angola. Acho que são as galinhas mais divertidas e graciosas que já vi. Um dia passeando tentei conectar com elas para conversar, mas elas pareciam um pouco atarefadas. Achei que fosse uma daquelas espécies que eu não consigo conversar, mas de toda forma disse “Oi!” e tive a impressão da galinha parar e me olhar antes de continuar com suas atividades.

Sempre achei curioso que eu notava esse agrupamento de galinhas com umas mais unidas e outras sempre para trás e uma em especial que parecia ficar gritando tentando chamar as que estavam meio perdidas e uma que sempre estava perdida gritando tentando localizar as outras. Notei essa situação por várias semanas, sendo que parecia que não havia um ajuste harmônico no grupo. Havia algo desencontrado nas galinhas.

Até que um dia eu notei algumas galinhas “discutindo”. Apesar de não compreender o conteúdo, consegui me conectar o suficiente para entender que essas galinhas estavam argumentando a situação das galinhas mais novas e das mais sêniors e colocando em pauta os assuntos e que havia uma galinha líder.

Então alguns dias depois eu noto todas as galinhas numa mureta totalmente conectadas. Minutos de total silencio eram seguidos de minutos de total debate. Passei por lá e achei isso fofo e só perguntei: o que vocês estão fazendo? Então ouvi uma galinha dizer que elas estavam debatendo e estavam num tipo de conferência. Elas então explicaram que quando debatiam seus assuntos não havia chance de alguém sair infeliz, todas precisavam concordar 100% com todas as decisões e todos os assuntos. Não importava quanto tempo levaria, mas todos os assuntos precisavam ser de total acordo. Não sei se nesse momento foram elas que transmitiram uma energia sobre esse assunto, mas no momento seguinte eu vi a sociedade achando que está numa democracia, mas que todos estão infelizes com todas as opções e sobre todos os assuntos. Vi também que ainda que haja uma democracia verdadeira, como é possível de fato construir uma sociedade pensando no bem estar de todos sendo que uma parcela dessa sociedade estará infeliz com a decisão. Vendo essas imagens a galinha retornou a explicar que se todas não estiverem satisfeitas, então ainda não acharam uma boa solução.

Percebi que as galinhas continuaram naquele local mais um tempo e pararam de me dar atenção. Então pouco a pouco foram voltando às suas atividades. A partir do dia seguinte algo mudou. Nunca mais vi galinhas perdidas. As galinhas pareceram se organizar em dois grupos, apesar apesar de continuar havendo uma única líder, mas esses grupos pareceram ficar mais próximos. Contando essa história para um grande amigo, ele brincou e disse que as galinhas tinham o sistema de Waldorf, comparando com as reuniões da escola da sua filha que estudava no sistema Waldorf e ele brincou que o mesmo acontece nas reuniões, elas não acabam enquanto todos não concordam com tudo. Então brinquei que daria esse nome ao texto quando contasse essa história.

Ainda tento conversar mais com elas, mas percebo minha deficiência em achar o ponto de conexão, mas ocasionalmente uma delas se aventura em dizer algo. Elas mostraram que o sistema dos olhos faz com que a forma de percepção e de comunicação seja diferente e por isso minha dificuldade de conectar e esse é um tema que estou interessada em explorar mais. Outra mensagem que passaram é que as pessoas desse lugar (o lugar onde moro) acham que elas servem para diversão e adoram perseguir e assustá-las e isso para elas é uma forma de abuso. O susto para elas é muito ruim e causa muito stress, mas elas também disseram que existe alguns humanos que as tratam com mais cuidado apesar de não as considerarem de forma apropriada (mostraram como se as considerássemos uma espécie inferior).