A estrada

Hoje acordei meio Milton: com a alma repleta de chão. Vontade de sair sem destino, sair por aí.

Buscar o que é meu, só meu, irrevogavelmente meu! Ver que o mundo só é grande pra quem anda de avião. Que pra quem anda sem destino ele cabe na palma da mão (como narrou Licks em tempos longínquos).

Tenho medo quando isso acontece, pois é sempre num domingo esperançoso que culmina numa segunda-feira com indigestão, depois de tentar engolir o mundo e não conseguir.

Quero muito. Quero tudo. Quero agora! Mas só até chegar perto de conseguir… Aí, quando estou prestes a finalizar algo em minha vida, eu desisto. Invento pra mim mesma uma dor física que camufle a dor na alma. Que me faça esquecer — ou desculpar — o meu fracasso em concluir qualquer coisa que seja.

A dor de quem pode resumir sua vida num círculo (mal) desenhado num papel, um círculo que nunca se fecha. Sua extremidades jamais se encontram. Uma sensação de eterna incompletude. Porque é assim que eu me sinto: incompleta.

Janeiro, 2005

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