Do Chá de Autoestima

A segunda-feira começava daquele jeitinho típico de segunda, nada de muito bom, nada de muito ruim. Caminhava com a calma de sempre, já que surpreendentemente não estava atrasada para o trabalho. Estava cortando um pouco do café de seus dias. “Não faz bem para o estômago!” Dizia o médico, alguns amigos (que mesmo assim continuavam tomando) e artigos na internet. Gostava do café, mas o que mais fazia falta era a sensação do café. A súbita energia que nos acomete após uma boa e grande xícara de um belo café não adoçado. Muito semelhante à força do Popeye após uma lata de espinafre. Talvez algum chá ajudasse nessa busca por energia, foi o pensamento que prevaleceu enquanto entrava no supermercado.

Caminhando e analisando as prateleiras, ficava muito indecisa, como de costume. Supermercado sem lista era sinônimo de horas vagando pelos corredores e nada decidido. Ou, de chegar em casa e perceber que não tinha comprado nada do que precisava, mas tinha bebida suficiente para duas festas. O objetivo era um chá, menos mal, só faltava o sabor, a marca e foi quando aconteceu! Eis o que encontrou no supermercado: assim… como quem não quer nada, ele estava ali. Amplamente recomendado por amigos e desconhecidos, o famoso Chá de Autoestima lá estava, disfarçado de Chá Verde e em uma embalagem comum. O tão desejado Chá de Autoestima chegava às suas mãos pela maior coincidência e tentava operar suas mudanças silenciosamente naquele corpo e naquela mente. As três doses diárias talvez ajudassem o bom cumprimento daquele objetivo.

Naquele dia quando entrou no ônibus e recebeu vários olhares, não achou que tinha sujeira no rosto. Achou que estava “destruidora mesmo a senhora, ein!” como diziam os amigos e no que teimava em não conseguir acreditar. Naquele dia, quando encontrou o crush, balançou o cabelo, abraçou, jogou cantadinhas suaves e viveu o seu momento sem se sentir patética. Aceitou os elogios e só agradeceu, não tentou justificar a beleza pelo uso da roupa nova, como de costume. Dançou quando ouviu música e se alguém olhasse era só porque talvez quisesse dançar também. Foi ousada naquele dia, do tipo que se arrisca, não ficou sem jeito ao falar em público, não se encolheu ao entrar em um lugar lotado e ser observada.

Não ficou no brilho labial e usou o batom vermelho quase nunca experimentado. Soltou os cabelos e deixou-os ao vento, pegando o volume da vida e o balanço de um samba muito bom, era muita beleza capilar que vivia enjaulada, domada. A cabeça não apontava o chão, seguia levantada e, mesmo a sua postura já indicava o que estava acontecendo ali. O andar passava confiança e não gaguejou na hora de apresentar um trabalho. Se colocou nas falas e expôs suas opiniões nos debates, não pensou que era incapaz de ter boas ideias, mas, finalmente, entendeu que mesmo que a ideia inicial não fosse a melhor, sempre pode-se melhorar, elaborar, desenvolver. Boas ideias são construídas com o tempo, afinal de contas. Naquele dia estranhou as decisões que tomou várias vezes, mas não deixou de tomá-las. Não deixou que o medo a impedisse de tentar fazer algo de um modo diferente do que estava acostumada. Naquele dia fez o que quis e não se importou com a forma que seria interpretada, chegou ao ápice da sua autenticidade ou algo parecido com isso. Efeitos do chá, efeitos da vida, de qualquer forma, se sentiu muito bem.

Desatenta como era, obviamente não percebeu de imediato o que acontecia, apenas dias depois, lá pela quinta dose, quando as palavras na embalagem lhe arrancaram risos. Seguia agora a espera do dia em que, também sem perceber, compre o famoso Juízo, líquido, gasoso ou sólido, em alguma loja e só perceba quando — enfim — começar a tomar decisões sensatas.