Por que (ou por quem) somos fortes

As pessoas costumam dizer que só percebemos o quão forte somos quando as coisas ficam difíceis na nossa vida. Estive pensando sobre isso, me perguntando onde estariam as minhas forças agora. Eu bem que precisava de alguma. Pra sair da cama, pra trabalhar, pra viver… As coisas chegaram num ponto que eu havia superado a algum tempo e eu não sabia como sair desse poço sem fundo — poço com fundo é uma concepção de otimistas — no qual eu me encontrava e onde eu só afundava cada vez mais. Não é nessas horas que nossa força deveria se revelar? Como uma espécie de super herói que chega quando tudo está quase perdido? Ela não veio, não até um momento que considerei emblemático e que me fez discordar da máxima. Talvez a nossa maior força não venha quando precisamos dela para nós mesmos. Talvez, e só talvez, a nossa força venha com menos resistência quando alguém importante precisa que sejamos fortes.

No dia em que perdi a minha mãe, eu sabia que precisava ser forte, não por mim, mas pela minha avó que perdia a terceira filha. E ela me lembrava disso… Me olhava com o olhar perdido, choroso, respirava fundo como que para engolir a dor e repetia: “Minha filha, esteja firme, firme como uma rocha.” E ela mesma também estava, ali, firme como uma rocha. Ela também precisava ser forte por mim, que perdia minha única mãe. Continuei sendo firme, e continuo, por ela e pelos seus 86 anos. Venho tentando ser, pelo menos… Talvez por isso esteja passando por um processo tão difícil de luto a um tempo que eu considero um pouco longo.

Fato é que a tempos não sei o que é ter forças pra qualquer coisa, vontade de qualquer coisa. Me sinto vagando nos espaços sem fazer diferença alguma por mim. Os últimos dias têm sido uma reprodução dos meus dias em piloto automático, até o momento em que recebi a ligação. Meu melhor amigo precisava de mim, não quando eu tivesse forças, mas imediatamente! E então ela veio… Tentando se recompor, levantando dos escombros que a vida jogara-lhe, limpando sua roupa e se apresentando para o trabalho, a famigerada senhora minha força. Minha força enfim foi liberta, pela necessidade de um grande amigo. Naquela hora, contrariando todas as semanas anteriores, eu não estava tão cansada, indisposta, deprimida ou fracassada quanto antes. Naquela ligação alguma coisa mudou em mim, eu sabia que ele precisava que eu fosse forte e que estivesse lá por ele. Eu sabia que não me perdoaria se não fosse assim, me conhecendo tanto quanto conheço. Sabia que não seria capaz de me perdoar por deixar um amigo tão importante e que precisa de mim como nunca antes tinha precisado.
 Alguns dias atrás, minha avó me disse que nos momentos difíceis tudo o que temos é a família. Posso até concordar, mas a muito digo que a minha família é quem eu escolho, quem se preocupa, quem corre do meu lado e que está lá por mim. Meu melhor amigo é minha família e, nesse momento, ele precisa que eu seja forte.

Acho muito bonita essa postura. Muito empática, pra usar uma palavra da moda. Mas, ainda assim, não deixo de me questionar dolorosamente: minha força se reestruturou — ao menos um pouco — quando alguém que eu amo precisava que eu fosse forte. Posso esquecer as minhas dores e angústias se alguém que amo precisa de mim, mas será que meus sentimentos por mim mesma são assim tão ruins a ponto da minha força sequer mover um dedinho sob os escombros quando preciso dela só por mim? Essas questões são bastante complexas e envolvem muitos elementos da construção do meu amor-próprio… Questões muito longas e que não vêm ao caso.

Fato é que eu escolhi a minha família, eu escolho todos os dias, e ela importa muito… É o que mais importa! E, no fim, quando as coisas estão muito mal, talvez a minha avó tenha razão… Tudo que temos é a nossa família, a que percebe, que se preocupa e que está ali, sendo forte para nos apoiar, quando nós mesmos não conseguimos ser. Deve ser por isso que aquela música sempre me tocou tão profundamente: “Família é quem você escolhe pra viver, é quem você escolhe pra você. Não é preciso ter conta sanguínea! É preciso ter sempre um pouco mais de sintonia!”


Gostou do texto? Ajude a divulgá-lo compartilhando, dando um ❤ pra ele ali embaixo e deixando um comentário! :)
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.