Chá Introspectivo

Eu tiro um momento após o almoço para refletir, brevemente, sobre as coisas que rodeiam minha mente, diferente das coisas que rodeiam meu corpo. Nesse tempo o tempo em si não tem tanto sentido, as constantes podem ser derivadas sem se anular, as coisas todas nunca ficam sempre no mesmo lugar. Eu ouço a música forte pulsando, pulsando, chovendo e chorando, o violino grita, o grave volta, rodeia, as cordas explodem e a euforia levanta o mar de neve da cor do som que me persegue.

Sentada no banco do jardim, com o copo de chá quente entre minhas mãos eu gosto de observar o fluxo de pessoas e respirar as árvores. Sem fixar-me muito em alguém específico posso imaginar fatos e acontecimentos de cada pessoa que aparece. Uma vida inteira pode ser criada em alguns segundos juntamente com a fumaça sinuosa que levantava do chá fumegante, eram também fumegantes essas vidas que percorriam os labirintos de minha mente. Eu era a arquiteta do destino fictício de cada um dos transeuntes.

Por um instante eu busco o cheiro de chuva, um fluido ou uma veia que pulsa simplesmente com a razão de ser, um sentido que desconheço mas, mesmo assim, procuro. Ao tomar o chá, recordo-me do gosto do vinho, a fermentação alcoólica que formiga na minha língua, o gosto modificado da uva (único que aprecio), eu ouço as horas em que as bactérias trabalharam nesse simples gole. Cada reação química levanta sua assinatura gustativa e espalha em minha língua a sabedoria de anos e anos, as bebidas fermentadas, cultivadas, exacerbadas.

A neve tem um silêncio particular, ele havia dito, assim como a chuva e o temporal tinham um aspecto único. Toda brancura grandiosa da neve caída sugava em si o som ao redor, um som que não mais existia, o som que se extinguia continuamente. Não me lembro dos flocos caindo, só cheguei a ver o tapete branco em toda sua extensão magnífica, não rolei cordilheiras a baixo, apenas apreciei as coisas a minha volta, minha voz não saía, toda neve me sugava e ali eu sumia, imersa e pálida, em nada.

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