Rascunho

Então me disseram, um dia, que a vida era assim: uma sequência de coisas que se deixa de fazer, um rastro de hobbies e gostos passados substituídos pela praticidade e urgência da chegada da vida adulta. Não posso mais dedicar-me aos prazeres irrestritos da leitura, ou arriscar-me nos versos sem sentido que populavam minhas noites. Meu pensamento deve ser todo voltado para as questões urgentes do aqui e agora que tangenciam minhas necessidades emocionais.

No auge dos meus dezoito anos (não tão distantes ainda cronologicamente, mas separados por um abismo no campo das impressões) eu imaginava que seria capaz de lutar contra essa convenção. Mas os anos foram passando, alguns lentos, outros rápidos, e as urgências foram sobrepondo as válvulas de escape. Escapar para onde? A vida real não permite fugas. Confesso que gosto das coisas que faço, meus olhos brilham diversas vezes quando trabalho, não é um fardo, nunca foi. Mas os escapes seguem necessários e a sede de aprender sempre é ainda tão profunda e urgente como antes.

Olho para trás e vejo meu rasto de gostos passados tocando o horizonte. Os poemas que escrevia, os contos que inventava todos distantes, numa linha que minha mão não mais alcança. O som das músicas que ouvia já está fraco, as idéias que proferia já não fazem mais tanto sentido. Mas, se existe a linha do horizonte, existe também o mar que a toca. Vez ou outra a maré traz de volta alguma coisa do passado, seja o gosto por ler algum livro, seja a música que voltou na memória. A única coisa, talvez, que ela não consegue trazer é a inspiração para ficção. Esta, a minha realidade ainda não permite.