Respiro e inspiro num inóspito suspiro

Hoje eu não acordei bem, talvez isso assim, dito deste modo, não seja tão inédito, mas para mim o mau estar foi como nunca antes sentido. Abrir os olhos e encarar o dia sempre tem suas dificuldades, hoje eu abri meus olhos e pensei se realmente valeria a pena tocar meus pés no chão. Acordo com um chamado eletrônico de celular, como um fio de realidade dolorida puxando-me para longe do conforto, respiro fundo, interrompo o fluxo de sons monofônicos, respiro novamente, checo a dor na minha coluna, geralmente causada pelo colchão já meio velho. Respiro mais uma vez. É preciso muito ar para içar-me da cama. Respiro, inspiro, suspiro, enfim.

Um tranco, eu diria, seria o exigido para que eu levantasse hoje de manhã da cama. Mas meu tranco veio em forma de desespero, logo de manhã, assim de repente, nenhum compromisso surge em minha mente, porém logo em seguida, uma série de questionamentos pipocam por trás de meus olhos (tenho essa imaginação que coloca o lugar físico da mente atrás da retina). Esqueci de algo? Eu deveria ter levantado tempos antes, já deveria estar trocada, arrumada e preparada sentada na mesa inóspita da biblioteca. Eu estou cansada, posso dormir mais um pouco, respirar com calma, hoje é apenas um dia, em um dia apenas eu posso sumir. Não, não há paz no sono que já foi interrompido, não há tranquilidade nem descanso para aqueles que não tem esse direito. Eu reclamo e exijo meu café, a massa corporal esticada ao meu lado reclama de volta, ele ainda dorme e dói ter que acordá-lo. Sozinha eu nunca consigo seguir logo nos primeiros momentos da manhã.

Ele é uma massa relaxada, mais cansada que eu enquanto aqui tenho uma massa tensa e descontrolada. Minha massa corporal é caótica e tende a envenenar toda e qualquer uma pelas vizinhanças. A manhã prossegue apressada, é assim que ensinaram que deve ser, acorda rápido, come rápido, troca-se rápido, o dia já corre quando os olhos ensaiam abrir. Eu sigo rápido e escrevo sempre sobre a mesma coisa, em momentos rápidos quando encontro-me sozinha, sempre na ânsia de encontrar alguém, com medo de ser bruscamente interrompida. Ânsia, paro e penso, vem de ansiedade? A minha ansiedade é o meu próprio veneno, tira-me a fome, irriga-me de preocupações.

As coisas voltam, os olhos perseguem, em lugar algum fico tranquila, em lugar algum sinto a paz, o que faz sentido, já que, desde sempre, encontrá-la dentro de mim eu nunca fui capaz.