Como definir meu estilo me ajudou a determinar quem eu quero ser.
Ainda existe uma crença de que moda é um troço fútil, "coisa de mulherzinha". Construção feita por essa nossa sociedade ainda muito patriarcal que acredita na existência de interesses exclusivamente "femininos" que estão invariavelmente abaixo de interesses considerados "masculinos". Montar um carro segue sendo visto como uma atividade muito superior à costurar um vestido. Por um tempo eu comprei essa palhaçada.
Pura estupidez.
Como adolescente gorda eu sempre vi a moda "mainstream" como um negócio inatingível. Essencialmente, eu achava que gostar de roupas era coisa de gente magra, bonita, rica e cheirosa. A parte mais fácil dessa equação era ser cheirosa, então eu gastava meus dinheirinhos em perfumes da Ralph Lauren e da Calvin Klein. Minha maneira de ter acesso às marcas que construíam aqueles indivíduos inalcançáveis. Olhar no espelho e não encontrar nenhum traço em comum com as garotas que vestiam estas marcas ficava bem mais fácil quando eu achava que tinha o cheiro delas.
Daí eu cresci e me encontrei no universo "do it yourself", "punk rock", "alternativo". Me enchi de piercing, tatuei até a bunda (sério) e descobri que se eu cortasse camisetas masculinas e usasse um top XG por baixo junto com uma calça jeans, eu conseguia construir um visual que cabia em mim. Esse visual carregava todos os signos que me permitiam fazer parte de um grupo pequeno e exclusivo, com a certeza de ser mais legal do que todo o resto do universo.
Quando decidi pintar o cabelo de rosa eu me vi como parte icônica daquele grupo. Eu era, enfim, alternativa. Que alívio era ter uma identidade enquanto eu passava por todas as dúvidas e questionamentos de uma adolescente introvertida dos anos 90. Eu não me sentia mais tão sozinha. Me entendi e me aceitei.
Mas a vida acontece e os subterfúgios que a gente constrói pra livrar nossa cara das dores inerentes à humanidade vão sendo desconstruídos diariamente por um destino inexistente, mas que adora rir da nossa cara enquanto a gente tenta montar histórias consistentes sobre quem somos e pra onde vamos.
A minha construção pareceria muito adequada caso minha banda desse muito certo e minha única preocupação fosse estar com as baquetas perfeitas, na hora correta. Porém, apesar das roupas pretas, cabelos coloridos e tatuagens em locais inapropriados, aos 20 e poucos anos a minha maior loucura era beber meia dúzia de cervejas além da cota e perder a hora de ir trabalhar no dia seguinte.
Essencialmente eu me tornei uma adulta comum como 99% das pessoas comuns se tornam. Trabalhando em um escritório, lidando com reuniões e interagindo com homens super empoderados por seus impenetráveis uniformes corporativos riscados de giz para torná-los ainda mais altos.
Foi nesse cenário que as minhas roupas cortadas a mão começaram a me deixar desconfortável. As meias-calças rasgadas gritavam toda vez que eu cruzava as pernas em uma reunião e acabava usando as mãos pra esconder os buracos. Com isso, eu falava mais baixo e me sentia menos segura de minhas opiniões, enquanto acreditava que a disparidade entre nossas roupas não tinha absolutamente nada a ver com esse súbito subjugamento.
Eu era "alternativa" e achava que moda era um troço fútil e bobo
Até que um dia eu reparei que a sensação de marginalidade provocada pela moda elitista, aliada ao meu discurso maniqueísta de construção do "alternativo", me fizeram considerar uma forma de expressão como uma força opressora, ao mesmo tempo que me incentivaram a criar uma racionalização sexista pra minha auto-exclusão desse universo no qual eu não cabia.
Durante todo esse tempo eu confiei no estilo (alternativo) pra me fazer sentir segura e pertencente, enquanto rejeitava todo o universo da "moda" por conta de construções machistas. Ao mesmo tempo eu não parecia entender que o meu estilo era, essencialmente, um manifesto individual construído através de roupas, tanto quanto qualquer desfile dessas marcas inacessíveis pra mim.
Esse processo de manifestação de independência me ajudou a assumir o quanto moda e estilo fazem parte da minha vida e são capazes de contribuir (muito) positivamente pro meu bem-estar e sucesso. Foi com moda e estilo que eu me encontrei (alternativa) e foi pensando em moda e estilo que eu decidi quem eu quero ser.
Então, nesses últimos dias, vasculhei todo o meu guarda-roupa e as impressões de meus amigos pra tentar me definir dentro de um conceito mais amplo do que o meu. É assim que, de hoje em diante, prometo pra mim mesma levar as minhas roupas a sério. Tratá-las com o devido carinho e atenção. Estudá-las assim como eu gosto de estudar os números e resultados do meu trabalho. Entender como cada uma delas afeta meu humor, minha disposição, minha postura e meu senso de bem-estar.
Não me sentirei mais sozinha. Me entenderei e me aceitarei. Serei o mais mulherzinha o possível. E foda-se quem achar que isso é fútil. Cês não sabem de nada.