Sobre Lugar de Fala e o Texto do Leo Ganem no Meio & Mensagem

Leo Ganem é CFO da agência Santa Clara e colaborador do Meio & Mensagem, um dos jornais / sites mais respeitados do Brasil quando o assunto é publicidade e comunicação. Há poucos dias ele publicou um texto chamado “Lugar de quem”, onde dá a sua opinião sobre o que chama de politicamente correto, apropriação cultural e lugar de fala. Eu sou Camila Gadelha, já trabalhei em algumas agências de propaganda, e hoje exploro o universo da tecnologia.

Fiz uma postagem em meu Facebook sobre o texto do Leo e comentei dizendo “Mais um dia, mais um publicitário (homem, branco, cisgênero, etc. etc.) despejando chorume sobre ‘o mundo politicamente correto’. Eles não entenderam nada.” Logo em seguida fui convidada (por outros homens brancos, cisgêneros, etc. etc.) a explicar mais profundamente a minha crítica.

É um saco entrar em discussões pela internet, fazer isso exige tempo e paciência que nem sempre compensam o esforço. Especialmente quando a gente não tem muita certeza se o interlocutor de fato está interessado em ter um debate mais estruturado. Mas, nesse caso, eu mordi a isca, respirei fundo e resolvi rebater os pontos abordados pelo autor. O que segue é a minha resposta.

O Leo Ganem começa o texto dele comparando o Brasil de 1980 com os EUA de 1980, aparentemente empolgado com o fato de que no Brasil de 1980 “todos podiam sacanear e ser sacaneados livremente”.

Nessa época, o Brasil e a América Latina atravessavam o que foi chamado de “Década Perdida”. A ditadura militar dominava e assustava os brasileiros. Foi nessa década, em 1981, que aconteceu o Atentado do Riocentro — uma armação de militares para tentar pressionar setores mais moderados da política local a prosseguir com uma nova (e mais pesada) onda de repressão à esquerda para paralisar as tentativas de democratização.

Nossa economia estava estagnada e a inflação descontrolada. Eu lembro que alguns produtos ficavam em falta e meus pais precisavam sair correndo pra estocar feijão ou tomates. Enquanto isso, os EUA aceleravam seu crescimento, terminavam a guerra-fria e, curiosamente, passavam a se importar um pouco menos com ações afirmativas e programas anti-pobreza.

O autor, nesse mesmo primeiro parágrafo, parece um pouco chateado e contrário ao que chama de “regras de linguagem e conduta que deviam guiar as interações humanas”. Ele cita algumas dessas novas regras, como a difusão do termo “africano-americano”.

Acho importante lembrar de outras “regras de linguagem e conduta que deviam guiar as interações humanas” que também estavam em voga durante a década de 1980 nos EUA. Uma delas é o sufrágio universal. Essa foi uma regra de conduta bem importante que os EUA conseguiu estabelecer em 1965 e a gente demorou até 1988. Outra é o fim da segregação racial.

Partindo de um princípio básico de que palavras ofendem e a ofensa pode, inclusive, ser um crime (calúnia, difamação e injúria, desacato à autoridade) me parece bastante razoável que existam discussões e determinações sobre “regras de linguagem e conduta que deviam guiar as interações humanas”. O que não me parece razoável é a vontade de que tais regras não existam e não sejam discutidas.

Acho que desejar que as pessoas sacaneadas não estejam respaldadas pela lei da maneira como as pessoas caluniadas, difamas e injuriadas estão é pedir a naturalização do racismo e de outras violências verbais.


A partir daí o Leo segue oferecendo mais alguns argumentos. Ele diz, por exemplo coisas como: “Um movimento nascido com as melhores intenções (…) passou a ser usado para o policiamento e cerceamento de ideias.” e afirma que “o cuidado excessivo (…) destruiu debates sobre genética, distorceu os livros de história, afetou a moda e a publicidade, e absolutamente enterrou qualquer forma de humor.”

Não consigo (e nem poderia) levar muito a sério essas afirmações. Já que o autor não oferece nenhum fato que explique como a criação de termos como “africano-americano” tenha destruído debates sobre genética ou uma distorção dos livros de história.

Mas como publicitária eu entendo bem quando ele fala que essa preocupação em não ofender “afetou a moda e a publicidade”. E fico bastante satisfeita com esse efeito, inclusive. O que me surpreende é que uma pessoa possa achar que esse resultado seja algo ruim, um incômodo, um problema. Parece que o Leo Ganem preferia viver em uma época na qual as pessoas ouvissem caladas qualquer uma de suas atrocidades, sem reclamar, sem debater, sem falar nada.

Me soa como um desejo bastante ditatorial e absolutista, o que explica um pouco as saudades que o autor tinha da década de 80.


Acredito que a visão dele sobre as pessoas, em geral, não anda das melhores. Ele acredita que “as pessoas são chatas por natureza” e a partir daí segue uma série de declarações sobre onde demonstram essa chatice. No Facebook, no Twitter, etc. Ferramentas que, segundo a opinião dele, viraram “um universo salpicado de pequenas milícias interessadas não em conteúdo, mas no policiamento de palavras.”

Diferente do Leo, eu tenho um fato sobre as redes sociais, lá vai: A maioria dos usuários consome — e não produz — conteúdo. Algumas regras falam de 1%, outras de 20%. Isso significa que, na verdade, as redes não estão mais interessadas com o “policiamento de palavras”, essa é uma sensação dele, que não corresponde à realidade.

Logo depois ele começa suas críticas ao “lugar de fala”, segundo ele, “uma das mais recentes novidades das patrulhas militante”. Um dos problemas dessa afirmação é que lugar de fala não é um termo novo, como o Google Trends mostra (pesquisa realizada em 03/11/2016).

Lugar de fala não é um assunto novo nem aqui nem na China (literalmente).

Uma das aparições mais antigas disponíveis na internet sobre o tema é um Estudo de Sociologia chamado “Campo e Habitus na Produção Jornalística — O lugar de fala como determinante da agenda”, de Patrícia Bandeira de Melo, Coordenadora Geral de Estudos Econômicos e Populacionais da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

A autora do estudo diz que “o lugar de fala legitima-se na perspectiva de quem é o sujeito que fala” e está diretamente relacionado com a formação discursiva ao qual o sujeito foi submetido, sendo formação discursiva a “materialização da formação ideológica, psicológica e linguística do sujeito, ou seja, a que grupo ou classe social pertence, em que campo social circula e de que forma está hegemonicamente inserido na sociedade”.

No entanto, para Leo Ganem, lugar de fala significa que “não basta deixar de criticar, como também não poder defender nem falar sobre uma causa se não tiver experiência direta com ela.” A partir daí ele cita uma fonte anônima (“uma blogueira que se auto-intitula feminista” segundo o autor) que supostamente criou algumas regras sobre o que é lugar de fala e quem tem o direito de falar sobre o que.

Usando o Google (mais uma vez), encontrei a blogueira que ele cita anonimamente, o texto ao qual ele se refere é esse aqui, mas o Leo deixou de fora alguns pontos importantes que contextualizam bem a opinião da Luana Toro (ou conhecida por ele como uma ‘blogueira que se auto-intitula feminista” ou “essa mulher”, em um trecho particularmente pejorativo).

A premissa dela é básica e simples de entender: “Quem tem propriedade para falar sobre esse tipo de assunto, é quem vive na pele a opressão.” De acordo com a definição de “lugar de fala” da Patrícia Bandeira de Melo essa lógica me parece bastante justa. E, diferente da crença do autor do texto, não quer dizer que “uma pessoa também não pode mais defender nem falar sobre uma causa se não tiver experiência direta com ela.”

Posso demonstrar isso com o mesmo post de blog que serviu de referência para o autor do texto do Meio & Mensagem. Luana Toro diz que

Então, eu não posso ser contra a homofobia por que não sou gay? Não, não. Voltemos duas casas. Você pode ser contra, ir nos protestos, compartilhar imagens no facebook que apoiem a causa, desconstruir os seus amigos e se desconstruir diariamente.

Ou seja, tá liberado sim falar sobre o Egito antigo se você pesquisou o suficiente sobre o assunto. Também tá liberado apoiar causas mesmo sem ter a vivência da opressão. O que é complicado liberar é a queda tão acelerada na conhecida “Lei de Godwin”, que determina que quando uma discussão online segue por tempo suficiente, eventualmente alguém vai fazer uma comparação hiperbólica inapropriada com o nazismo.

Mas quais seriam as verdadeiras “regras de linguagem e conduta que deviam guiar as interações humanas” que o lugar de fala sugere? Eu acho que essa imagem responde bem essa pergunta.

Parece fácil, mas pelo visto é difícil.

A parte mais importante desse gráfico, na minha opinião, é o primeiro círculo que já determina em que tipo de conversa o lugar de fala se torna relevante. Estamos falando, especificamente, de conversas sobre minorias.

Aproveito pra deixar a definição do que é uma minoria, para não termos confusão sobre ao que me refiro; “O termo minoria diz respeito a determinado grupo humano ou social que esteja em inferioridade numérica ou em situação de subordinação sócio-econômica, política ou cultural, em relação a outro grupo, que é maioritário ou dominante em uma dada sociedade.” Retirado daqui.

Um exemplo de minoria são as pessoas com deficiência, “pessoas com deficiência” sendo um dos termos que o Leo apelidou de “regras de linguagem e conduta que deviam guiar as interações humanas”. Esse termo foi definido em novembro de 2010, pela Secretaria de Direitos Humanos, que determinou que palavras como “maluco” (usada pelo autor) são uma forma de capacitismo, ou seja, discriminação.

Esse tipo de legislação parece incomodar o Leo Ganem, mas eu particularmente prefiro viver em um mundo que aceita evoluir e intencionalmente criar ambientes mais seguros e menos ofensivos para as minorias. Acredito que isso seja uma forma fundamental de avanço social, busca por igualdade e extermínio das formas institucionalizadas de discriminação. Para quem trabalha com comunicação, isso é ainda mais nevrálgico, já que deveria ser bem clara a relevância que as palavras (e a semântica) têm.

Ou seja, o convite de pensarmos em lugar de fala nada tem a ver com a ideia do autor que compara a reflexão sobre a relevância do seu discurso, quando em uma discussões sobre a vivência de minorias, com a determinação de que “abandonemos qualquer discussão sobre o que não pertence exclusivamente à nossa experiência subjetiva e individual neste planeta”. Respeitar o lugar de fala não tem a ver com abandonar discussões, e sim atribuir o devido valor aos argumentos de pessoas com mais autoridade em um assunto (por terem-no vivido).

Fazendo o mesmo caminho que ele sugere de “exagerar o raciocínio para ver onde ele leva”, é como se a Deusa Afrodite surgisse em uma mesa onde se conversa sobre deuses. Quem teria mais contexto para falar sobre mitologia grega?

É usando essa lógica que a gente pode começar a conversar sobre termos como “apropriação cultural”, outro termo que parece incomodar o publicitário Leo. Ele usa novamente o texto da Luana como citação. A blogueira diz que “Se uma mulher negra vê como apropriação cultural uma branca usar turbante, é porque é.”

O termo apropriação cultural, segundo essa matéria do UOL é um conceito da antropologia e se refere ao “momento em que alguns elementos de uma determinada cultura são adotados por pessoas ou um grupo cultural diferente”.

A definição é vaga, tão vaga quanto o termo, já que existem vários debates inclusive sobre o que, de fato, é cultura. É bem complicado definir de onde vieram certos aspectos das nossas vestimentas e dos nossos hábitos. Eu jamais saberia identificar, por exemplo, se um turbante representa parte da cultura sul-africana ou se é um ancestralidade egípcia.

Porém, quando pensamos no conceito de lugar de fala como definido acima e assumimos que uma mulher negra tem um contexto maior sobre aspectos da sua cultura, tal qual um judeu teria sobre o judaísmo, é fácil aceitar que a percepção dela sobre apropriação cultural deva ser aceita e respeitada. Já que ela vai estar simplesmente afirmando que esse elemento (turbante) está sendo adotado por uma pessoa de cultura diferente.

Nesse caso, se você — um homem branco — for também um estudioso profundo dos turbantes e cultura africana, participando de uma discussão sobre o assunto na presença de mulheres negras, basta ler o gráfico sobre lugar de fala que vai entender o que fazer. Se tiver algo real a acrescentar, fale, respeitando a outra pessoa.

Isso porque no fim das contas, lugar de fala é uma ferramenta de respeito que propõe a conscientização coletiva sobre como criar espaços de troca de experiências, aprendizado e colaboração que sejam justos e inclusivos.

Conforme expliquei ao longo dessa resposta, não se trata nem de longe, de uma forma de opressão ou de silenciamento de opiniões, mas sim de uma maneira de termos conversas mais produtivas, compreendendo as vivências individuais e nossas diferenças.

Gosto de acreditar que o mundo está em evolução, a tecnologia transformou a forma como nos relacionamos e segue cada vez oferecendo mais possibilidades de construirmos um mundo justo e confortável para todas as pessoas. Acho que faz parte desse processo criarmos algumas regras que nivelem a forma como interagimos para garantirmos esses lugares seguros.

Se isso incomoda publicitários homens, brancos, ricos, cis-gêneros, que sempre foram a maioria e detiveram o poder, que seja assim. Faz parte. As pessoas que falam sobre essas coisas e exigem esse tipo de respeito e cuidado estão se proliferando. Em breve, serão clientes da agência onde o Sr. Leo Ganem trabalha (se já não forem), ou talvez seus próprios filhos e filhas. Ele pode continuar se debatendo ou pode acompanhar.

De qualquer forma, será bem-recebido.

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