Abrindo a pílula: os efeitos colaterais do anticoncepcional

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A primeira pílula anticoncepcional desenvolvida no mundo, o Enovid-R, começou a ser comercializada em 1960 nos Estados Unidos. Peça chave na revolução sexual feminina e na luta pelo direito das mulheres, o comprimido que possibilitou à mulher deliberar por suas escolhas tinha 150 mg de estrogênio (os de hoje contém 20 mg) o que levou a uma forte incidência de tromboembolismo três anos após a distribuição do medicamento. Com o desenvolvimento da ciência, as receitas foram melhoradas. No entanto, o uso oral dos remédios anticoncepcionais ainda é a causa de doenças que afetam a vida de mulheres, e essas procuram por alternativas para poder manter o controle de seus corpos e prazeres sem precisar ingerir os hormônios da pílula.

Os anticoncepcionais são popularmente conhecidos por seus benefícios: têm alta taxa de prevensão da gravidez, regulam a menstruação, diminuem a acne, além de ser tratamento para ovário policístico, ou seja, cistos no ovário devido a alterações hormonais. A tecnóloga em logística Amanda Salles, de 24 anos, começou a tomar o anticoncepcional para regular o fluxo menstrual. Ela chegou a ficar três meses sem menstruar, além de ter cólicas muito fortes, acne e excesso de pelos. Amanda foi medicada com o anticoncepcional Artemides 35 e a maioria dos seus problemas foi resolvido — as cólicas ficaram mais fracas, o ciclo menstrual se regularizou, a quantidade de pelos e de acne diminuiu.

Apesar dos benefícios listados por Amanda, em nenhuma das suas consultas com ginecologistas ela foi avisada sobre os efeitos colaterais que o anticoncepcional pode trazer. Entre eles estão a diminuição da libido, variações de humor, aumento de peso, e problemas mais graves, como trombose, embolia pulmonar e até mesmo acidente vascular cerebral. A ginecologista Ana Luiza Antunes explica que é importante contar ao médico o histórico de doenças pessoais e da família, para evitar a prescrição de anticoncepcionais orais para mulheres que tenham tendência a ter um dos efeitos colaterais. “Pacientes com história pessoal ou familiar de trombose deveriam evitar métodos com estrogênio, assim como pacientes com alguns tipos de câncer. Nesses casos, uso de progesteronas ou dispositivos intra-uterinos são mais indicados”, orienta.

A jornalista Ana Beatriz dos Santos gostaria de ter conhecido esses efeitos antes de começar a tomar o anticoncepcional. O tratamento foi indicado quando ela tinha 22 anos, para ajudar a regular a sua menstruação, diminuir a quantidade de acne e controlar a tendência ao aparecimento de ovário policístico. Quatro anos depois, alguns amigos da faculdade, que estudavam na área de saúde, alertaram Ana para os riscos dos anticoncepcionais. Ela, então, decidiu fazer uma pausa. A gravidez da sua primeira filha aconteceu justamente nesse momento, o que fez a jornalista retornar à utilização dos anticoncepcionais assim que os médicos liberaram.

De volta ao uso contínuo de cartelas, dessa vez com a pílula Yasmin, Ana sofreu uma Trombose Venosa Cerebral (TVC), o entupimento das veias do cérebro por um coágulo de sangue, quando estava em uma viagem e passeava por um shopping em agosto passado. Foram 15 dias internada e mais 30 até estabilizar o fator de coagulação e Ana poder entrar em um avião de volta a sua casa, em Brasília. Ela inclusive teve que recorrer a remédios para controlar a ansiedade, com medo de que tivesse mais um caso de trombose. Agora, o anticoncepcional está proibido para a jornalista e Ana precisa, diariamente, tomar os remédios anticoagulantes. “A lição que tomei foi que a gente tem que ter paciência e tomar cuidado com essa questão do que as pessoas vendem como facilidade. De repente, as facilidades não são tão fáceis, como a contracepção oral”. Ana entrou para as estatísticas que mostram que, entre dez mil mulheres, de três a nove podem ter um problema grave relacionado ao anticoncepcional.

De acordo com a ginecologista Ana Luiza Antunes, além dos pacientes com história familiar de trombose e câncer, pessoas que passaram por cirurgias extensas, que tenham problemas de obesidade e pacientes tabagistas por mais de 35 anos têm o risco de trombose aumentado. Deve-se também ter mais atenção com pacientes hipertensas e cardiopatas. Entre os principais métodos alternativos que permitem que a mulher continue a ter sua liberdade sem engravidar, a médica reforça o uso de um dos mais antigos: a camisinha. De baixo custo, fácil de encontrar e de usar, ela deve ser sempre utilizada para proteger a mulher das doenças sexualmente transmissíveis (DST’s).

Reportagem de Ana Carolina Prieto, Camila Ignácio e Tamy Dassoler