Uma palavra bonita e novas reflexões sobre um conto já lido

Como toda menina nascida nos anos 90, cresci assistindo as princesas da Disney e sonhando com os maravilhosos romances de Aurora, Cinderela e Bela. E embora desde essa época eu já fosse apaixonada pela força, inteligência e impetuosidade de Mulan, também ela terminava sua história nos braços de um general, para um final feliz a dois.

Mas quando a puberdade enfim chegou, não despertou em mim um grande interesse nos meninos. Aliás, nem interesse deles em mim. Fui uma adolescente um pouco solitária. E hoje, quando olho para trás, me lembro que muitas vezes o que me incomodava era não poder falar que estava apaixonada por alguém quando as outras meninas só falavam disso, mais do que o fato de não estar namorando em si. Eu tinha uns 12 anos quando li pela primeira vez o conto “A moça tecelã” de Marina Colasanti. Fui tão impactada por ele, que voltei a lê-lo aos 15, aos 18, aos 20 e agora. É uma lindeza só, fala sobre amor-próprio, completude e também sobre relacionamento.

No conto fica nítido o porquê do romance da moça não ter dado certo. Ele não foi fruto de um sentimento genuíno pelo outro. O moço de corpo emprumado e sapato engraxado foi trazido por ela apenas para suprir sua necessidade de companhia. Enquanto ele só a usava para satisfazer sua ganância. Em uma sociedade em que os relacionamentos estão cada vez mais pautados numa lógica do consumo/descarte, a “lição” é que o amor só vale como fim em si mesmo, não como meio para o que quer que seja — companhia, felicidade, estabilidade financeira, etc.

Esse conto tem, para mim, um valor inestimável. Me faz lembrar que eu não sou nem quero ser metade de laranja nenhuma. A beleza do amor está em transformar dois em um, e não em juntar cacos ou montar quebra-cabeças. Sou inteira. Uma pessoa inteira e completamente disposta a amar outra pessoa inteira, mas que se reconhece como um indivíduo completo (e não metade de laranja, limão ou abacaxi) e por isso mesmo se dispõe em primeiro lugar a aprender a se amar — a tecer a própria vida.

A moça tecelã encontra satisfação na solitude. Solitude. Descobri esse termo a poucos dias. O próprio fato de ser tão pouco utilizado reflete a nossa compreensão sobre o estar sozinho como algo necessariamente ruim. Solitude é o contrário de solidão. De acordo com as minhas pesquisas no Google (sem rigor científico, desculpem), a palavra solitude foi cunhada pelo teólogo Paul Tillich para expressar “a glória de estar sozinho”. Achei tão poética, que a palavra ficou pairando na minha cabeça. Quando reli o conto de Colasanti o entendi de uma nova forma. Como um elogio à solitude. E eu reafirmo esse elogio. Não num espírito de “vamos ficar sozinhos eternamente porque isso que é bom”. E sim pensando em como nós deveríamos parar de estigmatizar a vida (a própria e a alheia), parar de conceber um único modelo de felicidade e perceber que a alegria pode ser encontrada de diferentes formas por diferentes pessoas.

Imagem do @theballerinaproject
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