O desgaste natural das coisas

As coisas, as roupas, as pessoas, tudo se desgasta com o tempo ou com o uso. Tudo sofre algum tipo de mutação ocasionada simplesmente por existir e um dia torna-se obsoleto, ultrapassado.

Sim, essa é a condição natural da vida. Não natural, mas dentro da normalidade dos dias de hoje é a obsolescência programada. Todos afinados com o termo?

Obsolescência programada é algo usado na indústria para que as coisas durem um tempo programado por ela, assim é possível saber quando alguém que compra algo precisará comprar de novo e assim a máquina do capitalismo funciona.

Contudo, não é sobre esse tipo que vim escrever, mas sobre a obsolescência programada que estamos programando para a nossa própria vida (e algumas vezes, por consequência, para a vida de outros).

Que o capitalismo, frio e calculista, faça meu celular tão querido quebrar, eu posso entender. Mas porque seres humanos, emocionais e sociais, estão programando o tempo ou a função única de outros seres humanos em suas vidas? O que aconteceu com conhecer pessoas e construir relações?

Desde amizades que só duram o tempo de um vínculo empregatício às pessoas maravilhosas que só têm uma noite, relacionamentos que podem existir só no inverno, só até aquela viagem, só até ela começar a se envolver, só até a gente começar a se envolver. Só.

E esse só, além de adjetivo pra essa geração inteira imersa em solidão, é o advérbio das condições que determinamos pra nossa vida toda. Com base em que?

Ninguém deve levar consigo uma relação que não dá certo, claro. Mas definir que acabe mesmo que esteja dando certo ou antes de se provar errado, não é natural. E de tanto programar e mudar o curso das coisas, tem uma multidão de pessoas perdidas.

Perdidas porque foram mandadas embora, mesmo merecendo ficar. Perdidas porque de tanto tirarem quem merecia ter ficado, não sabem mais com o que ficar. Todos perdidos porque resolvemos programar os relacionamentos antes que eles aconteçam e como não somos o capitalismo, frios e calculistas, saímos todos machucados ou vítimas da solidão quase patológica (quando não é de verdade) que enfrentamos em massa.

Às vezes (muitas), a pessoa certa aparece na hora errada, do jeito errado, com o tênis errado, pelo tinder, na balada, no meio do furacão. Mas isso não a torna merecedora de um encontro com obsolescência programada.

Por um mundo mais justo e mais feliz, vamos deixar as coisas durarem o tempo que duram. Vamos viver toda a felicidade que se tem pra viver.

Quando acabar a felicidade, acaba.

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