A universal arte do embromation

Tô aqui eu, pessoa séria e comprometida que sempre fui, sentada na biblioteca tentando encontrar alguma lógica por trás da declinação de adjetivos sem artigos nessa língua delícia que é o alemão e me pego constantemente distraída pela moça sentada na minha frente, duas cadeiras pra direita.

Eu devo estar na biblioteca há umas 3 horas, tempo necessário pra começar a molhar o dedo do pé nos conceitos básicos da gramática alemã e quando eu cheguei a dita menina já estava ali, sentadinha. Livro, caderno e caneta à frente, nossa querida companheira de biblioteca, acredita em mim, me passou todo este tempo teclando no celular, batendo papo. Ok, existe uma pequena possibilidade dela estar lendo Guerra e Paz na telinha do Iphone5, e escrevendo comentários super acadêmicos e fodas, mas eu e você sabemos que ela táva era no Whatsapp, pra não dizer Tinder.

Eu não tenho nenhum problema em passar 3 horas batendo papo no Whatsapp. Ontem mesmo eu vi 4 episódios seguidos de The Office, então ninguém aqui tá podendo jogar pedra no time management alheio. Mas o que eu não sou capaz de entender é porque a pessoa troca de roupa, sai de casa, pega o ônibus, chega na biblioteca, escolhe o livro, abre o caderno e tira a Bic 4 cores da mochila se a intenção era só trocar ideia com os amigos e ler os hashtags do #HappyBirthdayJustinBieber no Twitter. Por quê que faz isso?

Tem um espírito meu de justiça e ‘nerdisse’ que se irrita com o fato de que essa pessoa vai encontrar com o amigo pra almoçar daqui a pouquinho e vai reclamar do tanto que táva ralando na biblioteca nas últimas 3 horas, e daí vai se dar mal pra caralho na prova, o amigo vai achar isso tudo uma injustiça, uma sacanagem, vai arranhar o carro do professor com a chave do escaninho e uma pessoa perfeitamente inocente vai ser mais uma vítima da síndrome da procrastinação disfarçada de trabalho, também conhecida como embromation.

A embromation é um fenômeno antigo e estima-se que 100% da população sofrerá um surto deembromation em algum momento da vida. Seja na sexta-feira às 6:30 da tarde quando você está esperando o chefe te pedir as últimas mudanças (jamais serão) no power point da apresentação de segunda; na quinta-feira no escritório depois do almoço quando a ressaca daquela saideira bater ou naquele trabalho de grupo com o coleguinha que vai acabar refazendo tudo do jeito dele. Mais cedo ou mais tarde, vai rolar.

Mas acontece que o advento do smart phone banalizou a embromation e possibilitou que ela se espalhasse pra âmbitos jamais esperados da nossa sociedade, tipo academias, bate papo no bar ou até no trânsito, pra citar aqui só uns exemplos da ponta da língua.

Fala se não é cada vez mais frequente a cena do sujeito que chega na academia, faz ali um abdominal, 15min de Facebook. Puxa ali um pesinho, bora postar vídeo no Snap. E nessa, a pessoa passa 2 horas na academia, sai com aquela leveza de “malhei demais”, posta um #ralação, #segundaédia, #nopainnogain no Insta e ficou por isso mesmo. Você pode me dizer que 5 abdominais ou 15 minutos caminhando na esteira é melhor que nada, né não? Sim. Mas acontece que o tiro no pé da embromation é que muitas vezes ela deixa o próprio embromador com a sensação de dever cumprido. E daí esse sujeito me sai da academia e manda ver num whopper com batata grande porque ele realmente acredita que malhou como deus manda.

Assim como aquele brother que encontra com a galera pra tomar uma e fica metade do tempo meio ali meio no Whats, meio no Face, meio no Tinder, dá uma passadinha rápida no Insta da Gabriela Pugliese e retwitta um meme engraçadinho do Leonardo DiCaprio no Oscar. Amigo, isso não é passar tempo com as pessoas. Não se engane achando que tá super curtindo a galera, investindo na amizade com o pessoal do colégio, o nome disso é embromation social. E a grande ironia é que, nesse esquema, a vida pode passar a ser uma grande embromation, porque você tá no trabalho falando com os amigos, tá com os amigos respondendo um e-mail do seu pai, tá com o seu pai dando um like na foto da namorada e por aí vai.

Ah, que nostalgia daquele tempo em que embromar era deixar o Excel aberto numa planilha de 2003 e ficar mentalizando o encontro com o paquera no finde.

A embromation deixou de ser um passatempo inofensivo do trabalho e virou um estilo de vida.

E o negócio é o seguinte: a embromation não é bacana pra ninguém. Ok, talvez pro Mark Zuckerberg. Com certeza pro Mark Zuckerberg. Mas além dele, ela só deixa vítimas pelo caminho, é uma tristeza danada. Tanto pra pessoa que tá achando que tá fazendo alguma coisa mas num tá nada, tá só se auto-dando-um tapinha-nas-costas de dever-cumprido e depois vai se frustrar porque o resultado daquele esforço todo não chegou; quanto pras pessoas que tão ali de peito aberto, sem querer saber de embromação, a fim de ter uma conversa bacana, de estudar tranquilo. Porque elas acabam perdendo o tempo conversando com uma pessoa que só te responde “Aham. Top.” ou te distraem de uma coisa séria e bacana que é estudar a declinação de adjetivos sem artigos do alemão pra escrever um post desses, vê só.

Então, o seguinte: você, que já sabe que tem tendência à embromação e está passando por uma fase embromadora, faz um favor: fica em casa. Guarda essa procrastinação safada vestida de interesse e proatividade pra você. Fala pro chefe que acaba a planilha no fim de semana, vai ser melhor pra todo mundo. E não precisa se sentir culpado. A procrastinação é normal, faz parte da vida mesmo.

O perigo é achar que só sair etiquetando #workhardplayhard pela vida afora vai realmente mudar alguma coisa.