Era noite e eu voltava para casa, sentada no penúltimo banco do ônibus, depois de uma tarde agradável no cinema com meu namorado. As luzes distantes brilhando pelo vidro das janelas sempre roubam minha atenção, me deixando dispersa, alternando minha visão hora para fora e hora para os reflexos das pessoas na mesma moldura de vidro que me mostram as bolinhas pequenas, alaranjadas e brilhantes da cidade.
Depois de descer do ônibus, caminhei no mesmo ritmo da multidão, todos apressados e ansiosos para chegar em casa. As pessoas não conseguem esconder suas áureas fadigadas e pálidas depois de um dia de trabalho. Me aproximei para olhar o horário do próximo ônibus e o painel indicava 6 minutos. A fila era dividida em duas colunas, uma para porta da frente e outra para a de trás. As duas moças que estavam do meu lado aparentavam estar tensas, falando baixinho e apertando as mochilas contra o peito.
É nítido o medo que as pessoas sentem quando se aproxima a noite. Eu, por exemplo, me sinto vulnerável e logo em seguida lembro das palavras de minha mãe: “O medo nos protege minha filha”. Sempre tive dificuldade em aceitar essa expressão, talvez porque na minha mente ela chegue como um paradoxo, já que o mesmo medo que me protege é o que me paralisa.
Depois de observar as garotas do meu lado, me atentei para o que provavelmente as estavam deixando nervosas. O bêbado que vinha cambaleando em direção a elas fez com que se aproximassem mais ainda uma da outra. Ele, quase caindo, segurou no braço de uma das duas e a outra gritou. As pessoas se viraram para ver o motivo do berro, mas ninguém se importou muito e voltaram para sua longa espera.
Mesmo não tendo acontecido comigo, eu senti toda a tensão das garotas, o que me faz pensar que provavelmente o bêbado percebeu, porque logo depois caminhou na minha direção.Eu continuei lá em pé, no fundo duvidando da audácia do velho. Ele chegou tropeçando e se apoiou eu mim, eu o empurrei para se afastar, mas não deu muito certo. O infeliz voltou e simplesmente apalpou minha bunda e levantou minha saia. Eu vi todos os olhares na minha direção, aquela mão me tocando, o sorriso malicioso naquele rosto e o nojo subindo pela minha garganta junto com o soco que eu acertei na cara do sujeito. As garotas não sabiam se olhavam para o bêbado no chão com o nariz sangrando, ou se olhavam para minha cara de satisfeita ao ver meu ônibus chegando.
 Depois de tudo isso, o medo ainda me beira. A dúvida ainda persiste. Será que apenas dou um leve sorriso gentil? Não, corre o risco de ele interpretar errado e pensar que estou dando uma abertura. Ok, que tal mandar ele se fuder? Não, não parece uma boa ideia, uma agressão com certeza vem depois disso. Então o que fazer com meu medo?Deixar ele me proteger, ou me paralisar? Não me deixaram muitas opções. O que me resta é andar por aí, escondendo meu medo na mochila enquanto aperto ela contra o peito e espero meu próximo ônibus passar.

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