sobre não vestir 36 e tudo bem
Eu nunca estive satisfeita comigo mesma. Na escola, eu era muito mais alta do que as outras meninas. Me sentia meio desajeitada. Tive acne na adolescência e olheiras eu carrego até hoje. Nunca fui muito gorda nem muito magra, mas achava minhas pernas grossas demais e que minha barriga marcava muito.
No ensino médio, tive minhas fases de dieta, umas duas ou três, e foi sofrido. Pergunte a qualquer um dos meus amigos que acompanhou alguma delas e eles vão dizer: eu não era uma pessoa fácil. Na primeira, eu tomava remédio escondido da minha mãe — eu tinha 16 anos. Esquecia de comer o dia inteiro, e no fim do dia devorava uma pizza. Eu pesava 56kg nessa época, e me achava gorda.
Em outra, já na faculdade, contava as colheres de arroz integral sem sal e o frango só podia ter um fiozinho de azeite. Na última, uns 3 anos atrás, eu chorava quando tinha aniversário porque não poderia comer o bolo da minha tia. E, quando eu comia, eu chorava também, de culpa. Eu controlava tanto o que eu comia, que não era difícil eu terminar uma receita de pão e comer sete fatias de uma vez. Num domingo na academia, eu tive uma crise de ansiedade porque não tinha esteira pra eu correr. Eu perderia um dia de exercício, o que não deixaria que eu chegasse aos 54kg.
Fato é que eu cheguei aos 54kg, mas eles não duraram nem duas semanas. Quando saí do consultório médico, feliz porque tinha perdido gordura, minha perna estava fina e eu vestia 34, eu só pensava em comer. Sonhava com arroz branco, farofa, a galinhada com batata da minha vó e um pedaço de brownie. Mentira. Eu sonhava em comer um brownie inteiro.
Eu nunca mais consegui comer brócolis porque, quando eu sinto o cheiro de brócolis, eu lembro dessa época. Eu estava magra, mas aquela não era eu. Eu estava há 40 dias sem beber uma cerveja, sem comer carne, sem sair à noite. Definitivamente, aquela não era eu.
Eu relaxei, voltei a comer normalmente, e tudo ficou, de certa forma, bem. Surtava de vez em quando porque tinha chegado aos 58 e aquilo era inadmissível pra quem teve 54, mas, na medida do possível, estava tudo bem. Até ano passado, quando a minha vida virou de cabeça pra baixo, eu comecei a engordar mais e minha pele ficou ruim de um jeito que não ficava desde que eu tinha 14 anos. Eu chorava e me culpava por ter engordado tudo de novo, ficava com medo do que as minhas amigas iam pensar das minhas coxas, da minha barriga e das minhas bochechas, que ficaram maiores que nunca.
Mas aí eu parei pra pensar: ninguém sabe o que eu tô passando. Ninguém é obrigado a pegar 4h de trânsito todo dia, chegar em casa e ir malhar. Ou acordar às 5 da manhã pra correr. Ou ter um dia difícil, onde você só quer chegar em casa e comer um arroz com feijão, um chocolatinho, e, ao invés disso, comer alface com chia porque arroz e feijão engorda.
Sei bem do tanto de musa fitness dizendo que se você não correr, não malhar, não comer só o que vem da terra, você é uma relaxada, vai ficar feia, gorda e não vai ser inspiração pra ninguém. E me dói, muito, ver pessoas próximas a mim com esse discurso. Sem se colocar no lugar do outro, sem tentar entender o que está por trás de alguns quilos a mais. Pode ser muita tristeza ou muita felicidade. Você pode não estar nem aí pro seu peso, tá tudo bem. É claro que exames tem que ser feitos e temos que nos alimentar bem pra não entupir as veias aos 35. Mas o brownie, a lasanha e a galinhada com batata da minha vó vão fazer a gente feliz pra caramba. Pode ter certeza.
Digo tudo isso, como em todos os textos que escrevo, e tento internalizar também. É meu exercício diário entender que eu não sou relaxada, eu só estou passando por uma fase onde não dá pra me preocupar com peso. Eu não me descuidei, eu só tenho outras preocupações no momento.
Sabe, a vida já é difícil demais pra gente se colocar pra baixo. Se não der pra comer direitinho hoje, tudo bem. Se a calça 38 não entrou porque ela na verdade é 34, pega a 42 e seja feliz. Ou não pegue e mude de loja, ninguém é obrigado a comprar numa loja que praticamente valoriza a anorexia. (vocês sabem de qual loja eu tô falando)
A regra é só uma: mude se quiser mudar. Fique igual se quiser ficar igual. Faça exercícios se quiser fazer. Seja vegana se quiser ser. Mas sempre, SEMPRE faça isso APENAS por você. Se respeite e respeite suas fases difíceis, seus momentos de preguiça e sua vontade louca de comer um cookie. Falando nisso, o meu tá aqui me esperando.
