Câmbio, Paulo Coelho.

Não tenho muitas lembranças da minha infância, mas um momento parece estar preso na minha memória quando penso no passado. Eu tinha uns doze, não, treze anos e meu pai insistiu em me ensinar a dirigir naquele dia.

Foi a primeira vez que senti medo e excitação ao mesmo tempo, minha mãos suavam e meu coração nunca tinha batido tão forte, meu corpo sinalizava que nada estava bem, mas eu quis ir em frente.

Gire a chave, disse ele. Agora põe em primeira, assim ó, e faça sem olhar para a marcha. E meu pai me ensinou o movimento retilíneo uniforme não tão secreto assim do nosso carro de cinco marchas. A embreagem, o freio, o acelerador, isso filha, ajeita o espelho e pode ir.

Uma forte onda de furor invadiu todo o meu ser e acelerei. Por inexperiência e inevitável falta de jeito, olhei para as marcações do câmbio todas as vezes, isso deixou meu pai um tanto quanto exaltado, não só porque ele tinha me avisado de antemão para não olhar, mas também porque quando tirava os olhos da rua deixava de acertar, por um triz, latas de lixo, outros veículos e é claro, pessoas.

Ele me fez estacionar o carro e, com o rosto muito vermelho e uma paciência forçada disse: — Filha… você não precisa olhar para onde está indo, basta saber para onde quer ir.

Apesar de saber que meu pai não queria dizer nada de muito profundo, levo sua instrução automobilística ao pé da letra, quase como um mantra de autoajuda, à lá Paulo Coelho (não contem isso para ninguém, sou publicamente contra livro de autoajuda, não existe um exemplar sequer na minha casa, se procurarem displicentemente, é claro).