Aconchego de Vó
No calendário do Brasil, 26 de julho é uma data de afeto, carinho e aconchego de dois corações velhinhos e amigável que transcendem a sua decência ensinando que a vida valeu ser vivida até aqui. É o dia dos avós, seres tão amáveis que poderiam ser eterno, e não vale negar que o carinho da Vovó é mais gostoso. Que o cafezinho do vovô é tão cheiroso. Aqueles momentos de expressão pacientemente ensinam grandes valores dos antigos.
Por circunstâncias da vida, Deus permitiu um encontro bem próximo que os fins de semana com a minha vó, aos três meses de vida a Maria que une Jesus no nome é tão guerreira que acolheu-me de braços e coração bem aberto enchendo minha alma de amor, carinho e me ensinando que as nossas escolhas e renúncias são tão pequenas quando decidimos amar. A minha mãe perdeu dois irmãos que nasceram dez anos antes de mim, e um trauma tão grande fez uma ruptura desse afeto ainda quando eu era pequena, nunca fiquei magoada com minha mãe e depois de ser mãe entendi a proteção e a frustração de perder alguém que despojamos amor antes mesmo de conhecer.
Uma surpresa para todos foi procurar entender como funcionaria isso na minha cabeça, ter duas mães, que coisa legal, mais diferente e inaceitável para outros. Eu sempre achei M A R A V I L H O S O, uma mãe de coração e outra da barriga, foi assim que eu aprendi a entender esse mistério da maternidade em dose dupla, alguém que gera, te dando essência, te dando gênio, características e coincidência de um óvulo, de uma ser, e outro alguém te dando conhecimento, personalidade, direcionamento, mas carinho e amor de sobra. Há anos fui valorizando essa essência de ter avós, de ter alguém por você.
Eu crescia devagar estatura, e a idade ia passando, mas o mais legal de ter muito amor por perto era ter uma família reunida, que gostava de celebrar até o aniversário do gatinho, não tínhamos muito naquela época, por volta dos anos 90, mas tínhamos sorriso no rosto, garra da minha vó e conquistas que ainda viriam pela frente.
E a vida foi ganhando mais liberdade e doçura no velho bairro da cidade nova, perto de um floresta que mais parecia matagal de flores e árvores de tantas espécies que rodeavam o quarteirão da casa da minha vó, na pracinha eu passeava segura em sua mão, e naquele doce sorriso eu vivia contente com mais amor do que coisas, e brilhantemente ela foi me ensinando a ser doce e amável, simples, além de uma menina ingênua.
O ruim de ser criado com vó não é o ficar vovozado segundo os colegas diziam na escola, é você não ser projetado para ser alguém de verdade, não ser desafiada, estar sempre bem protegida, ter muito cuidado, recomendações, e até babá, as vezes eu pedia para crescer, mas quem nunca teve tudo isso e se arrependeu depois de grande, de ter crescido e assumido tantas responsabilidades, a se eu pudesse e voltar a deitar no meio da sala no dia de domingo ver o programa da TV Globo (Faustão) e anoitecer sobre seu braço, debaixo daquele edredom, mas já cresci e sinto saudades dessas boas recordações.


Ter vó é ter aconchego quentinho no domingo de manhã, uma sopa quando está doente, alguém confidente, braços estendidos para o acalento do pé na bunda, torcer por você em qualquer decisão. Aos seus 74 anos depois de quatro derrames ela tem o lado esquerdo paralisado, já não enxerga mais como antes, e a enfermagem deixou há tanto tempo que sente falta e me causa angústia por não poder ajudar, mais ainda sim tem um coração gigante, hoje ela faz trabalho social para famílias carentes e me ensina que as escolhas e renúncias são tão pequenas quando decidimos amar…


Amar é quando não dá mais pra disfarçar, tudo muda de valor, tudo faz lembra você. O amor é furacão surge do coração sem ter licença para entrar..