Êxito nacional, notoriedade internacional.

Produção e consumo cinematográfico no Brasil batem recordes no ano de 2015; quantidade de salas de exibição é a maior desde 1977 no país.

Atire a primeira pedra quem nunca criticou um filme nacional ou, pelo menos, não ouviu alguém falar mal de alguma obra brasileira. É inegável, porém, que desde Hector Babenco, Fernando Meirelles e José Padilha, ainda no início dos anos 2000, o cinema nacional está colhendo os frutos de décadas de evolução e adaptações ao gosto do brasileiro. É perceptível a evolução no quesito qualidade do cinema nacional. Os números demonstram claramente o interesse cada vez maior em filmes nacionais: a quantidade de público que as obras atraem aos cinemas é recorde. Segundo dados da Ancine (Agência Nacional do Cinema, a agência que regula o mercado do cinema e do audiovisual no Brasil), a participação do público em filmes nacionais já é de 13% — ou 22,5 milhões de um universo de 172,9 milhões de espectadores nas salas de cinema de todo o país. Só no ano de 2015, foram exibidos 128 títulos nacionais nas redes de cinema de todo o país, ante os 114 em 2014.

A estudante de cinema Giovana Cardeli, de Sorocaba, assídua frequentadora dos cinemas da cidade, opina sobre as produções brasileiras: “Apesar de ser uma pequena parcela em relação aos filmes estrangeiros, assisto a muitos filmes nacionais, desde ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ (1964) a ’Califórnia’ (2014), de Marina Person. Porém, acredito que enquanto não houver de fato um cinema de gênero no país e um investimento no mesmo, levando em conta que a maioria dos filmes acabam sendo independentes e sem grande público, não é possível dizer se o cinema nacional continuará mantendo o padrão de qualidade”.

Na sala de cinema ou em casa…

Apesar da concorrência da TV paga, com canais segmentados de filmes, séries e documentários, e mais recentemente com os serviços ‘on demand’, que via streaming possibilita acesso a diversos títulos através do computador, da TV e até de dispositivos móveis — a exemplo do Netflix, que já acumula mais de 2,2 milhões de assinaturas só no país -, o número de salas de cinema no último ano sofreu uma expansão que não se via no país desde 1977.

Bilheterias

No ranking das 20 maiores bilheterias no ano de 2015, três são filmes nacionais, responsáveis por 6% do público total: “Loucas pra casar”, que ficou em 10º lugar, com público de 3,7 milhões; “Vai que cola”, filme originado da série do canal Multishow, que angariou 3,3 milhões de espectadores às salas de cinema e ficou na 12ª posição do ranking; e “Meu passado me condena 2” que consolidou o 20º lugar, com 2,6 milhões de espectadores.

Novos tempos

Nos últimos 20 anos, Tropa de Elite e Cidade de Deus são os grandes representantes do sucesso do cinema brasileiro no mercado internacional. Tropa de Elite ganhou prêmios na Europa, com destaque para o Festival de Cinema de Berlim, e Cidade de Deus concorreu a quatro categorias do Oscar. Ambos os filmes serviram de chamariz para o cinema nacional do século XXI, mostrando que é possível fazer sucesso retratando a nossa realidade. Desde 2015, os holofotes estavam voltados para a indicação ao Oscar de melhor animação da obra ‘O Menino e o Mundo’, do diretor Alê Abreu. Gil Caserta, sorocabano que trabalhou na produção da animação, comenta o efeito da indicação em prêmios internacionais: “O efeito imediato é uma maior percepção dos brasileiros para o cenário de animação no país, podendo levar, em médio prazo, num aumento de público, e a uma abertura de oportunidades internacionais com distribuidores e coprodutores para os futuros lançamentos nacionais”. O Oscar, oficialmente chamado de The Academy Awards, ou ‘Prêmios da Academia’, é uma premiação anual promovida desde 1927 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, de Los Angeles. “É um prêmio do mercado americano e, como tal, seu valor está ligado a essa indústria. Finalmente o país foi inserido nesse circuito”, comenta Gil sobre a importância da indicação de obras brasileiras na premiação.

No contrafluxo

A iniciativa de abrigar um centro de produção cinematográfica fora das grandes cidades e centros populacionais e econômicos é um sonho, diríamos, um tanto extravagante para qualquer cidade. Além dos investimentos, a geração de empregos e o potencial de atração turística foram os motivos para Paulínia, cidade do interior de São Paulo, iniciar em 2005 os projetos para a construção do ‘Polo Cinematográfico de Paulínia’. No espaço é possível encontrar toda uma gama de equipamentos e estúdios, além de uma escola completa para formação técnica na área, a chamada ‘Escola Magia do Cinema’. Segundo informações da Secretaria de Cultura de Paulínia, foram investidos cerca de R$ 490 milhões entre construção e compra de equipamentos de última geração para o complexo. Porém, desde 2012, tanto o Polo como a cidade sofrem uma turbulência na gestão administrativa. Para tentar manter a estrutura milionária, que fez com que a cidade tivesse grande sucesso na área cinematográfica por um certo tempo — estima-se que até 2012 foram rodados na cidade mais de 40 longas -, governantes e pessoas relacionadas ao Polo Cinematográfico estão querendo modificar editais de uso. O objetivo dos novos editais é fixar uma taxa de uso dos estúdios e aplicá-las ao resultado das bilheterias dos filmes que serão rodados em Paulínia. A diretoria, vinculada à Secretaria de Cultura da cidade, afirma que esta mudança dará autossustentabilidade ao funcionamento do Polo, que somente no ano de 2014 teve gastos de R$ 40 milhões, e ficou sem uso em grande parte do tempo.

*Texto publicado originalmente no jornal universitário Expresso.